22 de jan de 2011

Dizem que no final do arco-íris tem um pote de ouro..
Eu nem preciso de tanto..
Bastaria o fundo da íris.

21 de jan de 2011

Tanto

Triste Bahia, ò quanto é semelhante...
Caetano dizia ontem, no pé do meu ouvido
Percebi a semelhança no ato
Atos todos, de uma peça que parece que nem começo, meio e tampouco fim terá
Uma baía isolada, ilha no oceano da cara, cabeça e olhar
Água cercando os lados e o meio, a linha entre as curvas que do pó emergem nuas
Nua como eu, que nessa praia de mares e morros, precisei nadar sem trajes
Nado e temo, demais, ou em menos
Menos um dia
De mais, estou indo embora, de novo, mas não de mim
Tampouco de mais...

18 de jan de 2011

Eu fico

Nesses caminhos em direção ao mar, andei a navegar pela ficção.
Necessitamos fixar um ponto um pouco aquém do horizonte, pra perceber que ele passa por nós um dia, ou nós é que passamos por ele.
Se ficcionarmos esse ponto, entretanto, pode ser que ele nunca passe, desapercebido por nosso olhar ofuscado do real.
O Carcará na beira da estrada fixa-se em sua presa e a ela não oferta redenção.
A montanha cortada me acompanha, fixa, na chapada, mas lá nem sempre esteve.
Precisamos de um pouquinho de ficção pra criar a história das montanhas e das presas do Carcará
Pra dizer na nossa, precisamos mesmo é do aficcionamento do olhar, que tudo tem de real e traz no instante a redenção, que ele próprio tanto precisa.

Parece que são muitos os meus caminhos,
mas aquele que eu quero é um só.

Da Capital de mim

Caminhos trançados a dedos, terras e mares, quem dera todos.
Ares cantarolados nos cabelos da menina, de Rio Claro à casa de paredes brancas, ali na esquina.
Planos Altos e pequenas fronteiras, do centro do país ao beco da rua que na menina mora.
Serras e arados debulhando a estrada que segue e planta, na rede ali ao lado
De são Paulo aos cinco à Estrela aos vinte e cinco, ainda do primeiro de muitos tempos.
Tempos de escudos e invernos, cristalinos, tenros, verdejantes, incessantes.
De Goiás se vai ao longe, aos 90 do tempo que não se prorroga, no velocímetro da vida que faz dele instante, pra poder viver mais, a cento e vinte por hora.

14 de jan de 2011

Por inteiro

O dobro da minha idade é um número inteiro cujo 2 mora na companhia do 5 e, se chegar bem perto, pode formar com ele o ápice de um símbolo bonito.
No ano passado o meu dobro era uma certeza exata, 2 números que juntos formavam uma companhia redonda, também inteira.
Percebi que entre os meus 2 dobros, o passado e o presente, se esconde um numeral ainda sem par, o 5 e uma companhia solitária.
Me pergunto onde se encontra sua metade e percebo que ela não é inteira, mas uma fração, uma entrelinha entre as metades dos meus 2 dobros, que por mim já passou.
Como não sou mulher de metades, resta-me esperar que a solidão do 5 dê lugar ao duplo sentido do meu dobro atual, inteiro, que eu anseio me esperar no 2.

6 de jan de 2011

Paradoxo

O meu canto sai seco e confuso
Como o mandacaru menino,
que não sabe se conhecerá a próxima estação
Enxergar o céu, ali do chão, não lhe basta nem acalma, mas tampouco desanima
Seu horizonte de areia é movediço como as dunas dos desertos que nunca conhecerá
E traiçoeiro,
Como as águas que ameaçam, tardam ou sequer anunciam
É o que, por instante, ainda lhe faz cantar

5 de jan de 2011

Cartas

Era uma vez um jogo de tarô, de cartas decoradas a nanquim
Eram luas e sóis, letras e datas, fotografias cuidadosamente entranhadas na memória
O baralho era efêmero, mas se consolidava no reflexo, de uma retina na outra
Ao invés de dizer sobre o futuro, ele dizia sobre o instante, que nada tinha a ver com o tempo, em sua definição
Dizia sobre a instantânea ilusão de realidade, sem citações de Foucoult ou Arendt
Só citava o olhar
Só citava a si mesmo

A solidez era tanta, que o baralho construía jardins, paredes brancas, redes e até castelos
Mas tinha, na sua força, o espelho dos olhares...2
O castelo do tarô não era o de Calvino, nem o do Príncípe, pequenino
Era de homens e mulheres, meninos e meninas
Era de meninos grandes, e mulheres tão meninas
E era decorado por flores, e suas cartas rústicas, vagarosamente lapidadas pelo vento

A efemeridade também era tanta, por se tratar de instante, que um vento bem mais forte, talvez um vendaval, acabou por soprar as cartas, ao invés de lapidá-las
Os meninos e mulheres alocaram-se na sua realeza e se edificaram, sem a solidez do reflexo em 2
Sem o baralho de tarô

Alguns construíram novos castelos, outras deitaram-se nas redes ou se apoiaram nas paredes

Da efemeridade de uma única retina, o tarô ainda constrói os jardins
E eles têm uma única rosa, protegida pela cúpula de um príncipe menino e eterno