31 de out de 2009

À noite à[dentro]

Ontem eu tive medo da chuva.
Tentei me abrigar da tempestade tua,
tentei me abrigar em ti.
Busquei tolices em passatempos de menina,
cruzei olhares em passos bambos, castelos de sonhos, sorrisos e lágrimas.
Silenciei-te em mim, e do teu silêncio me acometi.

Abriguei-me na sorte, na sacada e dentro do quarto.
Atirei-me na fuga, no sono, no livro aberto, nas palavras.

Roubei-te a cena, pesquei-te os mares, o sol, a doçura e rebeldia.
Vesti-me em branco, cinza e lilás.
Li-me lá, na estrela tua, em preto e branco e degradê.
Pintei o arco, a flecha, juntei o pó e fiz-me sino,
e ecoei pela viagem peito adentro.

Alimentei-te em mim, em prosa, verso e canção.
Cansei, deitei, e dormi, então.

30 de out de 2009

Mecanicismo

A Faixa é como um mantra.
Enfeitiça, e faz parar ao menor sinal de movimento.
Pode-se estar em alta velocidade, podem ser autocarros que só cabem dois.
O fato é que todos, fielmente, se rendem à Ela.
Ela é branca, feita de listras largas dispostas em pararelo. Não tem nada demais.
Nada de novo, nada de diferente. É igual às tantas outras, de tantas nacionalidades.
Mas as daqui, do centro do mundo, fazem parar.
Isso me chamou a atenção. Me encantou por um momento.
Me levou a uma profunda reflexão sobre a origem do poder Dela.
Conjecturei que, talvez, o costume fosse advindo da cidadania.
Esta minha mania meio platônica de pensar o homem naturalmente bom.
Embora com esse romancear, antiquadamente neoneoneo-clássico, por vezes ironizei o poder Dela.
Lembrei, racional e biologicamente, sobre o reforço negativo aos cães.
Pensei, repetidamente,sobre o reflexo condicionado.
Formulei uma teoria mais provável e sistemática para a magnitude Dela, na tentativa de refutar a minha constante Antiguidade.
Passei um bom tempo nesse sarcasmo afoito.
Mas a doçura do rígido brecar dos autos(carros)  foi, aos poucos, despertando o meu sensurado Platão.
Até que um brecar, mais rígido que o usual, me trouxe novamente ao mundo sensível.
Não havia movimento sobre Ela, mas deste havia iminência.
Era um perfume branco, antigo, com o cheiro do tempo, a esperar por alguém. Inadivertidamente, à beira da Faixa.
Ao perceber, meio demoradamente - como é comum a esses aromas antigos, que a muitos olfatos já serviram -, o rígido e politizado ranger de freios, um aceno de mão, meio sem jeito, frágil - como também lhes é comum ser -, disse o imperdoável: "Meu Filho, não haverá o cruzar asfalto. Desculpe-me. Podes passar".
E então, grosseiramente, o inteligível largou-se no plano das idéias e deu lugar ao insensível. " E O QUE FAZES AÍ PARADA ENTÃO, MULHER!?"
Sufoquei, de novo e com todo o cuidado, o Platão dentro de mim.

"Ela"

29 de out de 2009



Uma amiga perguntou, não diretamente a mim, o que fazer quando as coisas estão difíceis.
Pois só o que sei é que os horizontes nunca são os mesmos, embora o céu seja um só.
Talvez a perspectiva é que mude.



Uma amiga perguntou, não diretamente a mim, o que fazer quando as coisas estão difíceis.
Pois só o que sei é que os horizontes nunca são os mesmos, embora o céu seja um só.
Ou será que é a perspectiva

28 de out de 2009

Verso

As vezes me pergunto porque as pessoas de mais idade andam a falar com desconhecidos.
Talvez seja o tempo já vivido, que traz a ausência da vergonha
Talvez seja a solidão, que esse mesmo tempo traz.
Talvez sejam ambas, conjugadas e resultadas na necessidade da prosa.
Me pergunto se a prosa por vezes não é verso, apenas desabercebido.
Me pergunto se a fala é qualquer uma, ou se é a flor da idade que assim a faz parecer.
Imagino se os versos ditos são mais para quem os diz, ou mais para quem os ouve.
Concluo que são ambos e nenhum.

Demasiado humano



Biquini e camiseta larga por cima.
Água. Salgada.

Biquini, já sem camiseta.
Já fora d´água.

Toalha envolvendo o biquíni, molhado.

Toalha no corpo nú.
Areia.

Nem toalha, nem biquíni. Corpo totalmente nú.
Areia. Corpo seco.

Calcinha, sultien, blusinha, calça, blusa de frio (?), óculos de sol, chapéu, chinelo (?), colar de prata.
Areia.
Areia na calça branca, debaixo do guarda-sol.

Sol, mar, areia.
Biquini, nenhuma roupa, roupa demais.

Cachorrinho.
Pêlos, areia...e bolinha.

Os seres humanos são, no mínimo, peculiarmente engraçados.

Solamente

Uma negra carregando, graciosamente, uma grande tábua apoiada na cabeça. Só.
Uma garrafa de vinho barato e um vidro de bronzeador de coco abandonados na areia da praia. Sós.
Um cão sendo apedrejado por garotos na beira do mar. Os últimos, na companhia de seus pais. O primeiro, Só.
Um mergulhão em sua caça frustrada, banhado pela poeira de água esguichada por um jet esqui. Acompanhadamente Só.
Uma senhora sentada em frente ao mar, proferindo palavras soltas e tão sinceras: "ahh, o mar..". Incrivelmente Só.
Um espanhol pedindo moedas para apanhar o trem na porta da estação. Alcoolicamente Só.
Cenas singularmente capturadas em meio ao frenesi de acontecimentos diários.
O mendigo cantador da praça do Fórum.
Fotografias recortadas, editadas pelo olhar e revisitadas pela memória que faz do velho, novo, e do novo, o mesmo pálido e recorrente velho.
As coisas são, simplesmente, as coisas.


Vista do Pier da Marina de Faro, Algarve, Portugal