19 de ago de 2013

Existir, sem destino


A manhã desabrochou desajustada. Já não havia escuro e tampouco sol. O tempo era mais uma denominação sem importância.  A correria derretia-se perante a ânsia interna sobre o novo, o realizar, o desvirtuar. A seriema doou seu canto pra manhã que não trouxe o sol, apenas a luminosidade. Completaram-se. A construção ao lado também emprestou sinfonia pra manhã de solitudes. Ambientes inundados, imergidos, dentro e fora de mim. Há uma complacência muda no olhar do meu cachorro, sobre o que faço no jardim, sobre o que faço nas flores regadas dentro e fora do meu ser. Somos um, seres e flores e eu, afagando uns aos outros na tentativa de reavivar o belo do dia, da ausência de sol e da noite anterior, enluarada e fria. A respiração acalma, disse a professora em aula, disse Buda e digo eu, todos os minutos com os quais travo batalhas ilusórias, indispensáveis, infames e banais. A vida é mais. São as cores da grama e do ar, são as vozes da construção e da minha quietude. Nesse dia regado a pensamentos e sentimentos, como todos e tudo, são instantes que importam e me importam, e é neles que deposito a potência criadora que invade o real. Palavras são poder, ações são intimações para o real. Real é tudo o que invento, dia que reinvento e suspiro, respiro, comunho com os marimbondos no pé de café forte que me acelerou outrora. Prazeres e deveres, sentidos e sentires, amargo de beleza não refinada que contribui para o acelerar do corpo que depois precisa respirar pra relaxar. Paradoxos. Excesso e falta, tempo espaço, coisas e coisas e coisas, pessoas que faltam e se excedem, sucedem. Tudo vai. Tudo parte. Tudo é parte. As coisas e pessoas e sentires e devires. Deleuze e Manoel de Barros, Borges e Sachs, o que fiz e o que não fiz. O como é que permanece. O Tejo de Pessoa e sua beleza única, a mesma do quintal de Barros e do meu, e dessas palavras que aqui despejo, num pensamento frequente e errante de que não terei tempo de despejar todas as que quero, mas numa tranquilidade de saber que as que até agora transpirei, o fiz com zelo, apreço e intensidade. Assim como o canto da Siriema e dos pássaros tantos nesse goiabeira, os quais não sei o nome. Não importa. Eles não se ocupam da taxonomia ou de sua Sistemática. Tampouco eu. Não me preocupo em não conseguir, posto que tantos nãos ainda virão. Me ocupo, isso sim, com o sorriso terno e envelhecido que me chama pro café quentinho. Me ocupo na complacência do olhar imaturo e sincero do meu cão, a me pedir passeio e a refletir o meu próprio desejo, que também quer passear e trocar e viver, nessa manhã nem tão clara de domingo, em que me pergunto o que estou a  fazer descrevendo e analisando palavras e ideologias, quando existem sorrisos que um dia não verei e complacências sinceras me esperando pra comungar a existência.

6 de ago de 2013

A moça que nasceu com corpo de mar

Nasceu junto com a invenção do mundo, da barriga de uma concha torta, de uma valva só. Quando da sua gestação, o mundo que ainda não existia botava pressão, lá de dentro da concha, pra nascer a moça e, junto dela, o raiar do dia. O mundo sabia que pra ele existir, antes tinha que ter moça que pensasse nele e criasse dele um sentido mais concreto. E a moça que já se sabia, embora de existência não entendesse, tentava organizar os elementos daquele todo inquieto, pra botar pra fora qualquer signo tolo que ainda não havia, de alguma coisa que ela, embora pouco compreendesse, sem querer, já queria. Assim ela falou com os grãos de areia perdidos aqui e ali na solidão da sua concreta incerteza; falou com o verde das folhas que não tinha, com o preto do céu que estava na dúvida se nascia; fez pesquisa com o vento que sobrava meio a toa pela concha na sua imensa vagareza, perguntou pra ele se queria soprar um mundo que existia; e até sugeriu ao tronco que segurava a lua com destreza se ele não queria combinar sua cor ao verde, pra ajudar a ventar o sentido pra fora da barriga da concha que crescia, e de tanta organização repentina, até enjoo sentia. A menina queria nascer o dia, sentir o cheiro salgado que ela mesma tinha inventado, testar o som meio derretido de um nascimento ainda não existido. Continuou sua busca por unir os elementos, todos perdidos na concha, cada um com seus lamentos. Encontrou as andorinhas inventadas pelo mundo, de novo em pressão por fazer verão fora da barriga da concha, em crescente expansão. Ouviu delas um miúdo canto, de passarinho esquecido de um não mundo em pranto. Resolveu então agilizar o processo: pôr fogo de uma vez no nascimento de um talvez. Mas faltavam ainda alguns encontros, reunir alguns poucos contos pra contar pro mundo depois de nascido um pouco de sua história inventada em excesso, naquela pressão de uma crescente expansão, de uma realidade deveras organizada dentro da barrigada de uma concha deveras abandonada, de uma única valva e um longo processo de construir seu existir a partir de uma moça com tão inexistente porvir, que de valvas pouco entendia mas de solidão até que conjecturava, até pra escrever uma história de um mundo tão grande, e que de tão grande de muitas valvas necessitava. Faltava entretanto um último elemento, pra criar um existir de um mundo em concretude. E a essa altura a barriga da concha já tão grande ficava, e de realidade entorpecida a concha já tanto gritava, pra nascer logo esse mundo pressionado, voar aquelas andorinhas e aquele vento soprado; que embora com a água não se tivesse ainda obtido um acordo, e tampouco com a matéria estivesse a história toda conversada, resolveu a moça inventar apenas uma textura molhada, pra tratar de pôr logo em movimentos todos os existires que tiritavam em seu pensamento. Assim foi que a moça fez nascer o mundo em seu conceito, de um jeito apressado e meio sem jeito; e por ter se esquecido de pensar em si mesma nesse processo complicado de existir os outros elementos; por ter se esquecido de comunhar água e matéria pra se fazerem juntas um existir com mais contento; acabou a moça nascendo sem corpo delimitado, e na inconcretude dessas tantas existências existidas meio as pressas, a moça acabou por fazer-se assim mesmo, com corpo esparramado: um sem fim de água de mar salgado.

5 de ago de 2013

Diz

Corpo, morada do aconchego.
Saudade, morada da distância.
Quietude.
Cômodos outros, tantos.
Estranhos casos, mesmos.
Estranhamentos.
Sem palavras, textos, nexos...
Só distância.