30 de ago de 2011

Jovem Senhora

A menina lia O Velho e o Mar pela segunda vez. Assim como aos filmes que assistia, lia todos os livros por duas vezes, para entranhar por completo seu significado; para relembrar atemporalmente às histórias e até para, sobre elas, se permitir opinar. Se bem que de uns tempos pra cá, quase não opinava. Não dizia nada além do essencial, ainda assim acreditando, como o principezinho daquele livro antigo – aquele que protegia a rosa – que mesmo o essencial era invisível aos olhos, e as vezes também escapava às palavras. Assim crendo, na sua ânsia de não deixar escape aos dizeres ou mesmo às suas entrelinhas, ela dizia pouco, e só o extremamente pessoal, quase contemplativo. Tudo que fugisse ao puro e simples achar, intransferível, ausente de qualquer ciência, era como todo o resto que fugia ao instante: efêmero, desimportante. Ela não gostava de nada durável demais, somente se fosse instantaneamente duradouro, instante após instante, nesse, no outro, e no outro, compondo seu tempo. Tudo o que dourava nos tempos verbais, mas que amarelava no atuar do verbo, não lhe interessava. Como aqueles romances de uma vida, eternos em passado, presente e futuro, mas inválidos no atuar do amar, quando conjugado no agora, no não doar amor do dia-a-dia. Tinha aprendido a duras penas a sentir assim. Tinha apreendido-se a duras penas, sentindo assim. Era a única forma, agora ela sabia, do seu sentimento.

Por sua falta de método no achar, ela, que de Ciência se fartara em anos de distração, não podia mais exercer de sua profissão científica. Mas, disposta, exercia seu achismo com graça e timidez. Era tímida, sim, mas não por falta de chama. Tinha decidido atender a seu chamado latente e a não mais se distrair. Andara, sim, distraída tempo demais, embora menina ainda fosse. Mas agora, ela chamava. Chamava à mulher e ao lobo de dentro, em brasa e carne viva, virtude e incandescência.

A menina perdia seu horizonte no olhar azul do velho mar, depois de passar pela cegueira branca do Kilimanjaro e de seus Ensaios. A menina lia, via e enviesava. Não eram apenas filmes e livros que a revisitavam. Seguia as vielas de Veneza, no quadro de Escher em que a perspectiva não se fazia necessária, por se tratar da multidimensional Itália. Ela lia. E revivia seus mares e montanhas, vielas e façanhas, lusitanas, bascas, romanas, nórdicas, tão verde-amarelas. Revivia, nem que tão profundos quanto os do Caribe jamais fossem seus mares navegados. Nem que tão imponentes quanto o Kilimanjaro jamais fossem seus Alpes desbravados. Nem que tão geniais quanto os desenhos de Maurits jamais fossem suas gôndolas e máscaras. Nem que tão esperança ou tão ouro jamais fosse, ela. Eram eles todos dela, e somente dela haveriam de ser. E justamente por assim o serem, tão particulares, eram todos os mais bonitos, e todos eles os mais abandonados, mares e montanhas e desenhos e vielas, porque nela já não pulsavam em instante. Convalesciam, ainda que belos, em memória. Jaziam seguros e revisitados, mas já pertenciam a conjugações pretéritas.

Pulsavam agora em instante as tulipas na sua janela. E de repete, a falta de aroma delas, antes tão fria quanto os campos de inverno no postal holandês comprado em verão; essa falta de aroma se transplantava agora em graça, na sutileza do leve inclinar do caule para um sol que já não reinava, mas emprestava luar. O laranja desbotado soava harmonia no claro verde de água, nas águas calmas de tantos oceanos, envoltos num só lar. E ali, na sala de estar de novelas e solidões, na cozinha escura de chá e quietude, no outono invernal do quarto e das tulipas, ali a menina reinava, protegia sua rosa e sua essência, construía sua cúpula de frases e memórias. Construía invenções. Inventava o romance esquecido de seus pais, esquecia o romance mal-criado de seus irmãos. Julgava os seus, para se isentar de si. E nem mesmo o merlim de seu mais novo refúgio escrito era grande o bastante. Isso porque de encontro aos lugares passados, pulsavam e a revisitavam, instante após instante, estares de um sentir sem tempo.

O velho contemplava o mar e foi quando à porta do barquinho dela surgiram um par de semblantes cansados, resfriados e enrudecidos, a doarem beijos de boa noite. E a menina notou que aqueles pés com grossas meias, há pouco não as comportavam, embora a estação fria fosse muito semelhante. E que a camisola de alças e as cuecas desnudas haviam sido, a contragosto, substituídas por conjuntos quentes de flanela. E ela então se lembrou os porquês. A razão de suas montanhas e mares e vielas e postais convalescerem agora num tempo verbal bastante específico. “Uma mulher precisa viajar. Tanto quanto precisa estar em casa”, lembrou-se de ter escrito num mar ou montanha quaisquer. E num instante sem chamados ou conjugação, a menina sorriu em brasa e incandescência. Estava onde deveria estar. No único lugar onde, em instante, queria estar. Seu sentir sem tempo também era só seu, e não convalescia. E a conjugações, jamais se sujeitaria. Ela então mergulhou no seu traje quente de flanela. Deitou a cabeça no seu luar doado de tulipas. E ardeu seu navegar, até adormecer.

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