6 de set de 2011

O resto é resto...(amém)

"Não importa se só tocam o primeiro acorde da canção, a gente escreve o resto em linhas tortas, nas portas da percepção (...) Em livros de histórias seremos a memória dos dias que virão, se é que eles virão. Não importa se só tocam o primeiro acorde da canção, a gente escreve o resto e o resto é resto, é falsificação (...) Livres da estória, a nossa trajetória não precisa explicação e não tem explicação. Somos um exército, o exército de um homem só, no difícil exercício de viver em paz. Somos um exército, o exército de um homem só e todos sabem que tanto faz, ser culpado ou ser capaz. "

                                                                                        (O exército de um homem só /Humberto Gessinger e Augusto Licks)

A moça que trabalha na casa da minha irmã vai embora. Ela começou a trabalhar há uns 3 meses, mora com minha irmã e tem uma folga por semana, não paga nada pela moradia e recebe um salário. Mas não tem horário fixo, trabalha quando ou enquanto há serviço. Minha irmã tem quatro filhos: o marido, um menino de cinco e dois, gêmeos, de um ano. Um dos gêmeos não está mais entre nós, então, na prática, são três filhos para cuidar. O menino menor tem uma babá, mas ela tem horário fixo, o que significa que, fora desse horário, minha irmã e a moça se revezam no cuidar das crianças. A moça também faz a comida e cuida da casa. Ela tem a minha idade. De uns dias pra cá, a moça começou a ter crises de choro e tristeza profunda, que culminaram no seu pedido de demissão.
A moça que vai embora da casa da minha irmã é uma pessoa doce. Antes desse trabalho, já  tinha trabalhado em dois outros empregos, os quais abandonou pelo mesmo motivo. Por falar em motivos, um dos motivos que a tornou ideal para trabalhar com minha irmã é o de que ela não costuma sair, não tem muitos amigos e fica o tempo todo em casa. Assim sendo, aguentaria um trabalho que necessita de uma forte dedicação... Mas a moça não aguentou. Talvez o trabalho, talvez a distância da família. Ela está chorando, e indo embora.

Minha mãe hoje cedo me mostrou o recibo que comprovava o pagamento da funcionária aqui de casa. O recibo mostrava a quantia de R$ 680,00 e minha mãe me disse: "trabalha o mês inteiro pra ganhar isso". Então eu apenas disse que era uma vergonha. E minha mãe se enfureceu, dizendo que não era uma vergonha, que era um trabalho digno, e que esse era o piso salarial. Mas aí eu expliquei a ela o que queria dizer com a fala que a deixou enfurecida. Eu disse: "não é uma vergonha pra ela, lógico que não, pra ela é um orgulho. É uma vergonha pra nós". Aí mamãe consentiu e, balançando a cabeça, fez o pagamento da nossa funcionária.

Ontem aconteceram fatos marcantes. Falhamos, ao tentar subverter a ordem. Pilhas de emails anarquistas, inúteis. No momento da ação, falhamos, por excesso de discurso e falta de coesão.

E o que tem a ver isso tudo?

Meu cunhado disse coisas que não gostei, sobre as crises da funcionária da minha irmã. Minha mãe não gostou do que eu disse, sobre o salário da funionária aqui de casa. Eu não gostei de algumas coisas que ouvi e me peguei concordando, no almoço da subversão discursiva. A funcionária da minha irmã  "surtou"  tanto quanto surtam aqueles que acham que o emprego resume, ou pode resumir a vida. O piso salarial da funcionária da minha, e de todas as outras casas, não é uma moratória. Subverter apenas no discurso, é fácil e cômodo. E ajuda a manter as coisas exatamente como são.

No fim das contas, não atentar-se ao fato de que ninguém chora compulsivamente do nada e de que é possível pagar mais, ou atribuir menos serviço, se assim julgar-se mais justo, são apenas outros exemplos da mesma situação que nos leva ao afago do ego no excesso de palavras vazias: no fim das contas, cada um cuida do seu, e Deus, que cuide do resto.

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