18 de mai de 2011

Egoísmo

Estou doando a minha casa
E de tudo o que existe dentro dela, não arrecadarei sequer um centavo.
Não haverá um bazar em meu benefício, porque não sou capaz de valorar nada do que não irá comigo.
Necessito sim pagar as contas, mas a moeda de troca, nesse caso, não seria inteligível às cifras.
Tudo o que ficará possui em si história demais para ser findada em números
E, ainda assim, possui apenas uma parte.
Parte não suficiente para fazer caber nas malas, quais não sejam, aquelas da memória, estas sim, sempre cabíveis.
A história inteira é que irá, e com ela, cabem apenas poucas coisas que se pode carregar nos braços.

Estou doando a minha casa, e junto dela, a placa verde que construí com o numeral: 1003.
Dois zeros que espaçam o 1 e o 3 suficientemente para não entediá-los um do outro, mas que não chegam a lhes permitir a solidão, posto que, na sua aparente nulidez, são par.
Estou doando o jardim que desconcretamos, a roseira, a babosa e o meu pé de manjericão italiano.
Dôo também a tranquilidade das manhãs de domingo, o aroma das folhas caídas do outono, o cantarolar dos pássaros no fim de tarde, o barulho das janelas da sala batendo durante a tempestade.
Estou doando o azul da minha cozinha, acompanhado do cheiro do camarão na moranga e do frescor do suco de limão.
Dôo a cafeteira italiana e o amargo do café, suavizado pela réstia do sol, na janela sem cortinas.
Estou doando o rosa do meu banheiro e o friozinho incômodo durante o banho nas noites de inverno, advindo das janelas emperradas pelo excesso de tinta barata.
Estou doando o quadro de Monet que pintei na minha janela
E também a fotografia da lua cheia aprisionada por entre os dois pinheiros europeus da casa da frente, visível da metade do meu quintal, se eu me inclinar 45 graus para a esquerda e olhar ligeiramnente para cima, por volta das 19:30 de muitas noites doces.
Dôo ainda o laranja amarelado do adormecer do sol, visível do meio da rua, bem em frente ao meu portão.

Estou doando a minha casa.
Dôo com ela todas as minhas partes, histórias inventadas, embaralhadas.
A invenção, a desordem e os detalhes de cada uma delas, esses, eu carrego no meu abraço.
Este, que é inteiro e é só meu.

7 comentários:

Anônimo disse...

Lindo, Mi. De emocionar!!
Boa sorte nessa caminhada da vida...
um bj
Preps

Anônimo disse...

Novas metas... Tudo muito bonito que vc escreveu. mas cheio de tristeza e amargura,não se sinta assim...Doe também td que te traz tristeza e amargura, doe ao tempo que tudo cura e faz passar...pense agora no novo que vai se descortinar na sua vida nas descobertas que fará daqui pra frente, nas oportunidades que surgirá e principalmente nos seus entes mais queridos que te esperam e sÃO OS QUE MAIS TE AMAM...Daqui pra frente novas metas a serem conquistadas...Tudo que voce viveu foi aprendizado foi experiência que vai ficar guardado bem no fundo do seu coração e lembre-se um novo sol vai raiar em sua vida e te encher de alegria... ao acordar e sentir o cheiro bom de café e novos cheiros te farão se sentir a pessoa mais feliz do mundo
Nem tudo que nos aborrece e faz sofrer é,forcosamente, um mal.
Tenha confiança no Pai,que sabe extrair o bem daquilo que nos parece um mal.
Não fique triste.
Confie e siga à frente!

Dalponti disse...

Fica na lembrança o cheiro, a cor e a paisagem.O lugar e as coisas se acabam mas as lembranças nunca e por isso doa-se tudo.

Anônimo disse...

Quando vc olhar o por do sol laranja avermelhado adormecendo, pense que é uma porta de Luz se abrindo para vc e se sentirá a pessoa mais feliz do mundo.
Um abraço.

Anônimo disse...

Nem sou tão fã de Cazuza, mas já passei também por esse processo de mudança, final de uma fase tão maravilhosa da vida, que é a vida de estudante... efim, mas tem uma música do Cazuza que retrata um pouco isso, de uma maneira tão bonita... lembrei dela: "de repente a gente vê que perdeu ou está perdendo alguma coisa, morna e ingênua, que vai ficando no caminho, que é escuro e frio, mas também bonito, porque está iluminado, pela beleza do que aconteceu há minutos atrás".
Esta música era inédita, na verdade eu acho que era uma poesia do Cazuza que tava rabiscada, perdida em algum lugar - acho que era essa a estória - quem gravou, depois que ele morreu, foi o Ney Matogrosso e, desse sim, sou super fã!
Beijos
Maria Teresa

Anônimo disse...

Voce disse não ser capaz de valorizar nada do que irá levar...Não pense assim...Valorize tudo o que viveu, tudo que aprendeu porque não há bem maior que aquele que vivenciamos .
Leve com vc as boas lembranças os bons amigos.
Casa, mobília,roupas são bens materiais não tem valor nenhum, agora o conhecimento, a educação são os bens maiores que podemos levar conosco e que ninguém tira nem o tempo.
Pense nisso.
Divida o seu abraço fraterno com todos aqueles que te ajudaram chegar até aqui.
Deus te ilumine na nova caminhada.

Tati Plens disse...

as coisas significativas não são palpáveis. lindo texto!