16 de fev de 2011

A Tempo(s), Modernos!?

Certa vez escrevi, nos meus tempos de colégio, que a humanidade aos poucos se tornaria escrava de sua própria Ciência e Tecnologia, as quais, como aliadas, far-lhe-iam muito mal. Já bem recentemente, numa aula ministrada para a sétima série, proferi discurso mais ameno. Disse apenas que ambas são e estão postas como ferramentas humanas, cabendo a nós, seres sapiensantes, selecionarmos delas bons ou maus frutos. Por vezes discordo de mim, por outras tantas, não poderia concordar mais. Assim como meus muitos discursivos “eus”, tanto a Ciência quanto a Tecnologia, o pensamento e, porque não o desenvolvimento, são ambíguos, por se tratarem de produções humanas, como conceito e ato. E como tal, possuem premissas, prerrogativas, conjecturas passíveis de erro, de falseabilidade, de falsidade, de contestação, de julgamento. Em contrapartida, justamente por sua característica humana, são também detentores de potencial de mudança, de afirmação, de progresso, de beleza.

A palavra desenvolvimento, por exemplo, é bela. Talvez ainda mais belo seja seu aroma frutífero, seu gosto agridoce do Pré-Sal, gosto transposto, das águas do São Francisco; gosto acelerado do PAC, esperançoso, do tratamento contra o câncer ou contra a depressão, particulado, de um acelerador suíço. Tão belo se suporia o sorriso bem remunerado do educador, o sindicalmente garantido do pesquisador, aquele dignamente qualificado do trabalhador, o tolamente humanizado, de uma perereca multicor imóvel para o flash num fragmento qualquer de Cerrado, Mata Atlântica ou Floresta Amazônica.

A Ciência supõe produção, ou a pressupõe. Produção de saberes, de técnica, de tecnologias, de partilhas. Compartilhar novidades, avanços econômicos e humanitários, melhorias básicas e altamente luxuosas, as simples e as deveras complexas. Partilhar principalmente a si mesma, como oferta e produto, ferramenta tocável, acessível e entendível a todos; como processo, formação e informação, para além de setores específicos, politizados, elitizados ou academicizados, assim como o pão, a água, a aposentadoria, o salário mínimo, a cesta básica. Comunicar, enfim, mas não só. Relatar fatos, mas também incitar indagação. Divulgar, em parceria com as mídias, conhecimento e acontecimentos, prós e contras, intervalos de confiança e desvios-padrão, criando assim condições reais de interiorização, reflexão e domínio do saber. Tudo isso também é suposto e pressuposto, do desenvolvimento de um país.

De uma Nação espera-se coerência, na consCiência que em nós reside. Nem tanto um romantizar Kantiano, nem tanto um determinismo afoito, tampouco um reducionismo (Des)cartesiano ou um mecanicismo industrial. Nem tanto Espaço, nem tanto subsolo. Não se almeja o menos, mas tampouco o tão somente. Espera-se, além do benefício, poder também beneficiar, criar, andar com as próprias pernas; progredir na economia e na filosofia, no seqüenciamento de pares de bases nitrogenadas e nas tubulações de água e esgoto, em Furnas e na merenda escolar, nos quatro “erres” e na desaceleração do consumismo, no óleo de mamona, álcool da cana e no incentivo ao transporte coletivo, na exportação e no subsídio ao pequeno produtor, nas commodities e no declínio da curva, quase reta, do superaquecimento.

Da Ciência e Tecnologia espera-se apoio. Não finalidade. Tampouco salvação. Apoio. O mesmo que se espera da senhora quilombola com seu saber tradicional sobre as plantas medicinais da Reserva em que mora, aquele que se espera do agricultor que sabe, na brisa da manhã, o período certo pra o plantio e para a colheita. O apoio para a construção do conhecimento, de um talvez “fazer científico além da Ciência”. Um fazer que transborde limites prévios, que extrapole, sem ignorar ou negar, as paredes da Universidade e dos tubos de ensaio. Um fazer de cunho também humano e social. Um fazer comum, que busque parcerias para criar e se recriar, que se comunique com o mercado, com a economia, com a sociedade, com a sociabilidade, com a própria Comunicação.

A Ciência, como saber, não tem finalidade. Tem sim seu papel, como a arte, a religião, a política. Pensá-la como fim (como finalidade) pode trazer os perigos de um utilitarismo maquiavélico. Pensá-la como neutra pode enviesar seu foco. Pensá-la como puro prazer, pode transformá-la num instrumento de afago ao ego. Pensemo-na, então, como causa-consequência de um processo de desenvolvimento, mais que de um país, de uma sociedade, e por que não dizer, humanidade. Pensemos a ela como uma ambigüidade, de neutralidade confiável, contentável, contestável, falseável. Uma ambigüidade de belezas e tristezas, afirmações e negações, potenciais para o sim, para o não, e por mais paradoxal que possa parecer, para o talvez, esta dúvida que a permeia, a falseia, dá-lhe esperança e não a deixa cair na armadilha da dicotomia, do maniqueísmo. Pensemo-na como ferramenta, como responsabilidade, como crítica, como também passível de autocrítica. Pensemos nela, ainda, como potencial, de mudança e de manutenção, de comunicação e de informação, de crítica e de construção, de conscientização, produção e reflexão. Produção de tecnologias, de idéias, de formações. Reflexão de ideais. Para que seus produtos não sejam simplesmente aceitos como senso comum ou verdades intransponíveis e incondicionais; para que não sirvam apenas para reificar conceitos prévios ou novos pré-conceitos; e para que ambas, Ciência e Tecnologia, não caminhem para ser o cavalo de Tróia da modernidade, como outrora eu pensei e escrevi nos meus tempos de colégio, mas para que também não sejam ou se revistam da neutralidade casta posta no meu discurso, durante a aula ministrada para a sétima série.

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