22 de nov de 2010

Patavinas

Querida Professora.
Acho que não poderei fazer a prova porque tem um menino andando de skate encima dela. Precisamos urgentemente resolver esse problema!
Agradeço sua compreensão.

Eram esses os escritos da prova de um aluno do segundo colégio.
Acima dos escritos, desenhada bem grande por sobre as 10 questões com tema DNA, estava a figura de um menino sobre um skate. O desenho não chegava a ser artístico. Fora composto a caneta, com traço simples, o menino feito de "pauzinhos". O contexto, entretanto, era pura arte.
Arte por parte de todos ali presentes.
Por parte dos alunos, em não fingir que se importavam com a nota da prova ou com o fato de ela estar em branco, sobre 80% das carteiras ocupadas.
Por parte da professora, em fingir acreditar que os alunos tinham qualquer tipo de condição de responder à prova sobre um assunto tão superficialmente, pra não dizer ridiculamente abordado.
Por parte da diretora, em fingir crer que a mãe do aluno se surpreenderia ao saber de sua criatividade enviezada.
Da minha parte, em me portar como espectadora dum filme holywoodiano frente à piada generalizada que se instaura, dia após dia, no sistema educacional brasileiro.

Essa foi a prova mais criativa que eu já vi. A diretora, entretanto, não parece ter interpretado assim.
"Não servirá nem para puxar carroça", ela gritou.
Novamente eu fui artista, pra não virar, de repente, terrorista. Pratiquei da minha arte patética do "filtro auricular e mental", tão aprimorada nos meus muitos anos de graduação.
Internamente, pensei que talvez o autor da prova não fosse mesmo passível de puxar carroça. Pensei que ele poderia, depois de algum desesforço mental, virar diretor de escola. Ou quem sabe, se se aprimorasse na arte da revolta, pudesse ser um grande publicitário, e no futuro ser até contratado para fazer o slogan daquela escola e seus grandes méritos no Saresp.
Divagações, patéticas na mesma medida da aula do segundo ano.

Esse foi o mesmo aluno que, não por coincidência, esteve por vinte minutos em pé de frente para a parede num dos cantos da sala, na última prova de biologia. O motivo era simples: por duas vezes pronunciou palavras ao vento, após ter terminado a prova. "Se vocês não sabem se comportar como adultos, serão tratados como crianças", gritou a diretora naquela ocasião. Três outros alunos também estavam nos outros três cantos da sala, pelo mesmo motivo. E eu, enquanto martelava para mim mesma que crianças também eram cidadãs, permaneci fisicamente confortável, imóvel sobre a cadeira, nos vinte minutos restantes de aula.

Mas crianças não têm senso de humor muito refinado. Nem tampouco escrevem corretamente o português, ou ainda, escrevem com corcondância verbal ou coerência discursiva. Não escrevem com a ironia que permeava a prova do aluno do segundo ano.
Confesso que esbocei um sorriso de canto ao ler a prova. Me senti, ao contrário da professora e da diretora, um pouco menos parte da palhaçada escolar, embora a intenção do aluno provavelmente tenha sido justamente o contrário disso.
Senti até um fio de esperança. Não por achar que o aluno estivesse consciente de seu protesto simbólico. Tampouco por achar que os outros 79% da sala estivessem protestando silenciosamente ao não preencherem sequer o nome na folha de questões. Mas por ter a certeza de que no picadeiro estavam somente eu, a professora, a diretora e o São Paulo faz escola, e de que os alunos, não queriam sequer ser os espectadores deste patético espetáculo chamado escola.

Crianças escrevem com inocência. Jovens ou adultos insatisfeitos, utilizam-se por vezes da ironia. E aqueles que até a perspectiva da escrita já perderam, apenas continuam escrevendo...
(em veículos de comunicação  nos quais sabem que bem pouco serão lidos)

2 comentários:

betucury disse...

Fazendo escola.
O menino e seu sk8.
As pessoas e suas patavinas.
A gente e as nossas vitaminas.
Fazendo escola.
O menino e seus textos.
Direto pro sossego.
Professorando o enredo.
Skates e esqueites, enquetes irrelevantes.
Pensava ser relevante o instante, agora, tenho certeza

Um beijo meu anjo

Larissa Alfonsi disse...

oi miii... adorei este espaço... voltarei sempre aqui! =]

bjos.