14 de mai de 2010

Tanto e tãopouco

Ouvindo a melodia de um antigo pas de deux, desenterrada dos meus tempos de ballet, percebi que ela tinha um "quê" de fantasma da ópera.
Fantasmas meus, mais do que de óperas quaisquer
Nenhuma relação com a música que tocou hoje cedo na academia de musculação
Talvez tenha recordado o ballet para tentar conter minha irritação às 8 da manhã, após séries de repetições diversas e 20 kilômetros rodados em um metro quadrado, vendo o jornal da manhã
Não que outrora, dançando o tal pas de deux às oito e meia da manhã de sábado, minha irritação fosse menos incisiva
Era, talvez, apenas menos intrusiva
Tempos modernos, jà hà muito tempo trás

Falamos de Chaplin na mesma aula que discutimos Foucault
As prisões do corpo, as esferas de poder
Corpos dóceis, era o tema da discussão, docilmente feita em círculo
Os mesmos círculos feitos pelos pedais abaixo dos meus pés, na academia
Docilmente eu me irreitei, já que a rebeldia seria contra mim mesma
Já a irritação, posso delegar

O delegado não interveio no roubo da bolsa da senhora, dentro da delegacia
Ele também delegou, sua função a outrem
Funcionando assim, os tempos também fazem círculos, dóceis, resignados ou abnegados, não sei ao certo
Sei que minha irritação se esvaneceu, na louça sobre a pia, no garagem repleta do xixi do meu cachorro, no pedido de uma amiga
Não nestas coisas em si, mas no que, delas, me remeti
A cerveja de ontem a noite, meu cachorro e minha amiga

3 comentários:

betucury disse...

A artista vai se soltando.
Tempo.
O esvanecer da irritação é lindo sintoma.
Desfiá-la nos detalhes da coisas.
A irritação que traansborda na pele aquilo que já tão febre foi por dentro.
É a mestra das palavras reagindo.
Muito bom...
Um beijo

neo disse...
Este comentário foi removido por um administrador do blog.
Priscilla Amaral disse...

Meu querido e admirável amigo, estou de volta !!!
Porem indo para Irlanda em Agosto !
Um grande abraço e meus parabéns pelas sua palavras !!!