17 de abr. de 2011

Anos Incríveis

What would you do if I sang out of tune,
Would you stand up and walk out on me?
Lend me your ears and I'll sing you a song
And I'll try not to sing out of key.

Oh, I get by with a little help from my friends
I get high with a little help from my friends
Gonna try with a little help from my friends

                 (A Little Help from my Friends, dos Beatles, mas mais legal com Joe Cocker)

Noite de sábado, rádios que acessam a internet, tiram fotos e ainda servem como telefone, em alto e bom tom na praçinha escura. Uma lata de had bull vazia brilhando na grama, uma lua bonita, me lembrando um filme antigo qualquer. Risos e açoitos apresentam uma roda de meninos, adolescentes, no escuro da praça. Meninos que outrora foram meus tios, meu pai e meu irmão; meninos que ainda serão meus sobrinhos, os filhos de meus amigos e quem sabe também os meus. Imagino uma roda de garotos de cinco anos, numa escola elitizada qualquer. Imagino-os numa manhã de sexta feira, com seus brinquedos da Hot Wills e roupas da Chico, chegando aos poucos nos monstros lustrados de seus pais, que os chamam carros. Chegando e se posicionando na roda, um a um, conforme suas afinidades de crianças de cinco anos. Imagino-os comentando sobre o estranho acontecimento da última noite, a visão aterrorizante de um dos garotos, um Vectra velho estacionando na porta de sua casa de bairro nobre. De dentro dele sai um velho amigo de seu pai e seu filho também de cinco anos, por conseqüência, amigo, ainda não de conveniência, do garoto. O garoto, estranhado com situação tão incomum, diz ao pai, meio de canto, sobre a inadequação do automóvel. O pai acha graça, concorda com a velhice do carro e deixa prá lá. O filhinho do dono do Vectra não estuda na mesma escola do garoto indignado, portanto, não está na roda de amigos da Discovery Kids I, II, III e mil. A roda discute, horrorizada, tamanha esquisitice. Posso ver os gestos e talvez ouvir algumas rizadas. Na manhã seguinte, o garoto diz ao pai que não quer mais que a mãe vá buscá-lo na escola com seu Peugeot sujinho e riscado. O pai não dá maior atenção ao filho, apenas diz que se ele não quer ir de Peugeot, que vá a pé. Liga o GPS do seu celular, que avisará sobre os radares, e segue para a escola burguesa do filho.

No meu romantismo quase Kantiano, essa situação não me parece o que aconteceria numa roda de garotos de cinco anos, independentemente da marca de seus brinquedos, roupas ou método de ensino. Se valores assim se constroem em rodas de garotos de cinco anos, então talvez eu entenda as rodas de homens de trinta, que falam de outro objeto de assunto, mais comum aos homens a partir da puberdade, como se falassem do objeto de assunto daqueles garotos de cinco. Eu me enojo desses homens de trinta, mas não posso me convencer da livre escolha de assunto daqueles garotos de cinco. Algo está errado. E eu não acho que seja os riscos do Peugeot, a velhice do Vectra ou tampouco a minha. Acho que entendo porque nunca gostei das rodas: por mais de uma vez, me esqueci que sexta feira era dia de exibir meus brinquedos; e até hoje, uso meu celular apenas para dizer alô.

30 de mar. de 2011

Sobre pautas e cuecas

O laudo técnico da ótica dizia: troca não realizada por constatação de uso indevido. Uso indevido, método qualitativo de análise, por muito ignorado pelas ciências ditas “duras” e até hoje visto com maus olhos por elas. Tratando-se justamente de olhos, de óculos de grau, meu olhar criativo conjecturou possíveis usos indevidos: como colar, arquinho de cabelo, lupa das crianças, sossego do cachorro, peso de papel. Não, eu não havia utilizado indevidamente meus óculos. Olhos de volta à dura realidade do papel-laudo: lentes – sem defeito; banho anti-reflexo – sem defeito; blá blá blá – sem defeito. Constatação: uso indevido. Olhos de interrogação, circulando o espaço do quarto, onde outrora os óculos habitaram por uma semana, desde a aquisição. “Uso indevido”, olhos pensantes, “festa a fantasia: não; aventuras eróticas: não; excesso de lágrimas: não; lambida do cachorro: também não; controle de televisão por engano: não”. Olhos intrigados, ainda calmos, na nota de rodapé do laudo: os óculos devem ser lavados com detergente ou sabão neutros e enxugados com guardanapo de papel ou tecido macio. Maciez: outra análise qualitativa. Olhos no banheiro, constatando: sabonete líquido neutro e toalha TECA, ultra macia (na qualificação minha e da etiqueta). Não, eu realmente não usei indevidamente os meus óculos. Olhos no laudo, levemente irritados, traduzindo o técnico: "se vira com os riscos, mané, seus cinco cheques já estão pré-datados".

E eu precisava de uma pauta.

Então conjecturei duas: a cientificidade dos métodos técnicos qualitativos nas entrelinhas dos consumidores que lavam os óculos segundo as normas técnicas; ou: a subjetividade da técnica: qualitativamente a favor de quem? É, talvez não fossem temas noticiáveis. Então me sentei na cozinha, reclamando meu infortúnio não-noticiável e recebendo conselhos de “não se revolte com coisa pouca”, enquanto me lembrava de ouvir indignações terríveis sobre as cuecas no chão do banheiro. Tive um choque de realidade às avessas. As cuecas no chão do banheiro seriam mais indignantes do que meus direitos negados de consumidor? Ou seriam elas mais apavorantes do que os cachorros sarnentos espantados aos montes, diariamente, da portaria do meu condomínio? Lentes de R$500 reais seriam menos importantes do que lentes de R$2000, numa lógica técnica-subjetiva? A construção do nosso entender da culpa, onde se constrói? Será que eu devo desculpas pela maciez não suficiente da toalha que riscou minhas lentes? Devo me retratar aos métodos qualitativos, os quais não me são claramente especificados, e devotar toda minha revolta às cuecas? Ou devo canalizar a energia da revolta na repreensão aos latidos do filhote do meu cão, para talvez construir nele o mesmo derrotismo que me faz não latir os meus direitos de cidadã; qual seja, talvez, o mesmo derrotismo que faz o meu cão não latir, hoje, quase nada. Indignações, construções sociais pré e pós-estabelecidas? Injustiças, pautáveis? Valores, noticiáveis? Creio precisar de pauta mais técnica, quem sabe sobre como lavar lentes de grau de alta qualidade com detergente neutro, secar com tecido macio, e rezar, para não ter seu desvio padrão classificado qualitativamente como uso indevido.

14 de mar. de 2011

Graça

Hoje tive alguns encontros com o passado.
Um passado tão próximo, tão vivo, e tão longínquo.
Creio que o que me levou às recordações foi um almoço solitário num restaurante lotado. Solitário, não sozinho. E por opção.
Cumprimentei a invisibilidade do moço que retirava os pratos, enquanto me dava conta da minha própria, também a ele. Achei graça.
Graça, outro encontro. Hà tempos não encontrava essa ótica.
Encontrei a falta de civilidade ao me deparar com a insignificância da faixa de pedestres desses lados tropicais. Mas me lembrei, de cara, da falta de humanidade também tão realçada onde as faixas têm seu poder.
Engraçado, foi o achar da graça.
Talvez tenha se dado por ouvir um alerta de mensagem de um celular que eu já não tenho mais, meu antigo companheiro nos mares do norte. O sms não era pra mim, desta vez. A lembrança, em contrapartida, sempre será.
Outonos de olhos e ouvidos, folhas do Porto, música doce de praça, neve de Seia, blusa de lã cheirosa, mar de África, cores de jardim. Fotografias que não se rendem ao amarelar do dia, dos meses, dos anos, se assim for preciso.
A graça pode ter ar de tristeza. E por isso mesmo, é ainda mais bela e doce. Azul, mesmo com chuva fina na janela do carro estacionado, esperando pelo doce amargo do café.

4 de mar. de 2011

Casa pré-fabricada

Abre os teus armários, eu estou a te esperar
Para ver deitar o sol sobre os teus braços, castos
Cobre a culpa vã, até amanhã eu vou ficar
E fazer do teu sorriso um abrigo

Canta que é no canto que eu vou chegar
Canta o teu encanto que é pra me encantar
Canta para mim, qualquer coisa assim sobre você
Que explique a minha paz

Mais vale o meu pranto que esse canto em solidão
Nessa espera o mundo gira em linhas tortas
Abre essa janela, a primavera quer entrar
Pra fazer da nossa voz uma só nota

Sexta feira, véspera de festa, e acordei com a melodia que chama a primavera
Primavera igual a da minha folha azul sulfite, que ainda floriu pouco, coisa da qual não me arrependo
Contei as flores e lá haviam duas
Dois dias inteiros, a versar no singular
Dois concorrentes por vaga, foi o que me disseram ontem, na entrevista
Concorrer é palavra que não me cabe, a não ser que seja para correr junto, grudado, mesmo que distante e singular pareça
Correr pra alcançar a nota mais doce, mais suave, mais terna e eterna
Dois foram os dias de flores, que floriram forçadas no meu inverno azul bebê
E eu, que sou simbólica, gosto da casa construída aos poucos, pensada, sentida, pluralizada
Deixo entrar a todos, mas sempre de dois em dois, eu e mais um
Deixo entrar pela única porta aberta, enquanto as duas abas da janela repousam encostadas
Deixo entrar, visitar, eternizar o instante, mas por hora moro só
Moro no 1, acompanhada por dois longos zeros e instantes edificados
Moram aqui ambos numerais, e na minha simbologia, eternizado está um só
Um, que chama o outro, querendo encontrar o novo, de novo
Um, que se reconstrói ainda mais puro e leve, que se representa na menina e a ela representa
Um, que representa a espera solitária, sua angústia, medo, ânsia, vontade, saudade, vigor, amor; mas que não se adia
E se apresenta, tocando de leve as 1003 primaveras que entrarão pelas duas folhas abertas, azuis, sulfites, já-nelas.

25 de fev. de 2011

Palavras, apenas

As palavras irrompem como a fome, intransigentes, urgentes
Violam a harmonia das estranhas, compõem novo caos de melodias, vozes
Não cessam enquanto não saciam, persistem, consomem as reservas, as forças,
Chegam à carne, adoecem os músculos, enrijecem, silenciam

As palavras queimam como o frio, gangrenam as vísceras, os reflexos, as lembranças
Insurgem tempestuosas, exigentes, arrogantes, incondicionais
Ameaçam soprar certezas, devaneiam, enlouquecem

As palavras impõem-se, sem educação, cuidado, zelo, respeito
Sem permissão escalam os braços, as cordas, se gritam mudas, insistentes, pertinentes
Ausentam-se presentes, fixas, olhadas, molhadas, faladas, comidas

As palavras afirmam-se, impetuosas, charmosas, formosas, insinuantes
Seqüestram o fôlego, o cheiro, o gosto, o aconchego
Seqüestram a alma, o delírio, o suor, a razão
As palavras são como a paixão

24 de fev. de 2011

Ama relo

Gira, sol.
Doze meses, doze horas no centro do mapa.
Cinco meses, cinco horas nos pólos do globo.
Gira à frente e atrás, céu.
Hora se põe no Sul, numa montanha qualquer ocular.
Hora se põe no Norte, na cordilheira oceânica, ilha da cara.
Íris.

Gira, sol.
Foge só até o inverno passar.
Cede seu posto pra aurora, a borear as luzes da noite.
Dá espaço, lugar pra constelação,
Pra estrela cair.

Gira, gira mundo, ventos, tempos, sol.
Mas volta, migra, vem com a andorinha, veranear.
E floresce,
Girassol.

Transe

Somos seres simbólicos.
Designamos símbolos para expressar sentidos e sentires.
Substantivos, verbos transitivos diretos, singulares, plurais, em todos seus tempos e espaços.
Preteridos, nós?
Pretensiosos, talvez.
Nos confundimos, as vezes.
Nas palavras, símbolos, sinais.
Confusão, substancial.
Seria estado intransitivo?
Dá não.
Decido que transgride, transmuta, direta e indiretamente.
O tempo é que ainda substancia.
E os verbos, até quando se substantivarão?
Espera.
Só o quanto pode, pra não intransigir
e entristecer.

Cartas áridas de mar

Uma flor para cada dia, uma, outra e mais uma
Margaridas coloridas, no mar azul sulfite
Se rosas fossem, dor apreenderiam
A delicadeza aprenderá nas cores
Cores de quem ama, e chora por seu ofício

16 de fev. de 2011

A Tempo(s), Modernos!?

Certa vez escrevi, nos meus tempos de colégio, que a humanidade aos poucos se tornaria escrava de sua própria Ciência e Tecnologia, as quais, como aliadas, far-lhe-iam muito mal. Já bem recentemente, numa aula ministrada para a sétima série, proferi discurso mais ameno. Disse apenas que ambas são e estão postas como ferramentas humanas, cabendo a nós, seres sapiensantes, selecionarmos delas bons ou maus frutos. Por vezes discordo de mim, por outras tantas, não poderia concordar mais. Assim como meus muitos discursivos “eus”, tanto a Ciência quanto a Tecnologia, o pensamento e, porque não o desenvolvimento, são ambíguos, por se tratarem de produções humanas, como conceito e ato. E como tal, possuem premissas, prerrogativas, conjecturas passíveis de erro, de falseabilidade, de falsidade, de contestação, de julgamento. Em contrapartida, justamente por sua característica humana, são também detentores de potencial de mudança, de afirmação, de progresso, de beleza.

A palavra desenvolvimento, por exemplo, é bela. Talvez ainda mais belo seja seu aroma frutífero, seu gosto agridoce do Pré-Sal, gosto transposto, das águas do São Francisco; gosto acelerado do PAC, esperançoso, do tratamento contra o câncer ou contra a depressão, particulado, de um acelerador suíço. Tão belo se suporia o sorriso bem remunerado do educador, o sindicalmente garantido do pesquisador, aquele dignamente qualificado do trabalhador, o tolamente humanizado, de uma perereca multicor imóvel para o flash num fragmento qualquer de Cerrado, Mata Atlântica ou Floresta Amazônica.

A Ciência supõe produção, ou a pressupõe. Produção de saberes, de técnica, de tecnologias, de partilhas. Compartilhar novidades, avanços econômicos e humanitários, melhorias básicas e altamente luxuosas, as simples e as deveras complexas. Partilhar principalmente a si mesma, como oferta e produto, ferramenta tocável, acessível e entendível a todos; como processo, formação e informação, para além de setores específicos, politizados, elitizados ou academicizados, assim como o pão, a água, a aposentadoria, o salário mínimo, a cesta básica. Comunicar, enfim, mas não só. Relatar fatos, mas também incitar indagação. Divulgar, em parceria com as mídias, conhecimento e acontecimentos, prós e contras, intervalos de confiança e desvios-padrão, criando assim condições reais de interiorização, reflexão e domínio do saber. Tudo isso também é suposto e pressuposto, do desenvolvimento de um país.

De uma Nação espera-se coerência, na consCiência que em nós reside. Nem tanto um romantizar Kantiano, nem tanto um determinismo afoito, tampouco um reducionismo (Des)cartesiano ou um mecanicismo industrial. Nem tanto Espaço, nem tanto subsolo. Não se almeja o menos, mas tampouco o tão somente. Espera-se, além do benefício, poder também beneficiar, criar, andar com as próprias pernas; progredir na economia e na filosofia, no seqüenciamento de pares de bases nitrogenadas e nas tubulações de água e esgoto, em Furnas e na merenda escolar, nos quatro “erres” e na desaceleração do consumismo, no óleo de mamona, álcool da cana e no incentivo ao transporte coletivo, na exportação e no subsídio ao pequeno produtor, nas commodities e no declínio da curva, quase reta, do superaquecimento.

Da Ciência e Tecnologia espera-se apoio. Não finalidade. Tampouco salvação. Apoio. O mesmo que se espera da senhora quilombola com seu saber tradicional sobre as plantas medicinais da Reserva em que mora, aquele que se espera do agricultor que sabe, na brisa da manhã, o período certo pra o plantio e para a colheita. O apoio para a construção do conhecimento, de um talvez “fazer científico além da Ciência”. Um fazer que transborde limites prévios, que extrapole, sem ignorar ou negar, as paredes da Universidade e dos tubos de ensaio. Um fazer de cunho também humano e social. Um fazer comum, que busque parcerias para criar e se recriar, que se comunique com o mercado, com a economia, com a sociedade, com a sociabilidade, com a própria Comunicação.

A Ciência, como saber, não tem finalidade. Tem sim seu papel, como a arte, a religião, a política. Pensá-la como fim (como finalidade) pode trazer os perigos de um utilitarismo maquiavélico. Pensá-la como neutra pode enviesar seu foco. Pensá-la como puro prazer, pode transformá-la num instrumento de afago ao ego. Pensemo-na, então, como causa-consequência de um processo de desenvolvimento, mais que de um país, de uma sociedade, e por que não dizer, humanidade. Pensemos a ela como uma ambigüidade, de neutralidade confiável, contentável, contestável, falseável. Uma ambigüidade de belezas e tristezas, afirmações e negações, potenciais para o sim, para o não, e por mais paradoxal que possa parecer, para o talvez, esta dúvida que a permeia, a falseia, dá-lhe esperança e não a deixa cair na armadilha da dicotomia, do maniqueísmo. Pensemo-na como ferramenta, como responsabilidade, como crítica, como também passível de autocrítica. Pensemos nela, ainda, como potencial, de mudança e de manutenção, de comunicação e de informação, de crítica e de construção, de conscientização, produção e reflexão. Produção de tecnologias, de idéias, de formações. Reflexão de ideais. Para que seus produtos não sejam simplesmente aceitos como senso comum ou verdades intransponíveis e incondicionais; para que não sirvam apenas para reificar conceitos prévios ou novos pré-conceitos; e para que ambas, Ciência e Tecnologia, não caminhem para ser o cavalo de Tróia da modernidade, como outrora eu pensei e escrevi nos meus tempos de colégio, mas para que também não sejam ou se revistam da neutralidade casta posta no meu discurso, durante a aula ministrada para a sétima série.

Som ar água.
Não está tudo junto, nem separado.

13 de fev. de 2011

Alivia

Ali via varanda, com frente Parati.
Pele branca, vultosa maestria, repousa no cais.
Velonge vejo, carvalho sem dono, vinho romã.
Rumo a bombordo, no vento, à proa,
Ali vinha tecido, traçado, novê-lo.
Revés popa, suco coco, bolo-mar aqui, ali, acolá.
Maracás, entre nós, ali via marejo, anseio, velejar.

Baile de Máscaras

Um samba de Noel e um chopp vestido de branco
Um traje de gala e uma câmera aprisionando instantes de efemeridade
Uma reforma nos móveis, nos cômodos, na casa, na razão, na vaidade
Um expresso duplo com espuma de leite
Uma verdade

Inundação

Chove na torneira e no filtro da cozinha
Chove no chuveiro e no sabonete líquido do banheiro
Chove nas paredes e no travesseiro do quarto
Chove na espera da sala
Chove no vazio do quintal
Chove na rudeza da pétala do jardim
Chove em mim
Muito

11 de fev. de 2011

Ter sonho de outros, de alguns muitos tantos que se ama, gosta ou conheçe
Ter sonhos reais, simples ou até comuns, sonhos, apenas sonhos
De vida, empregos, prosperidades, vontades, pessoas, famílias
Filhos, maridos, esposas, casais de amigos, casais, casas, casulos, carnes

A crença no instante é como nó de vestido largo, que se aperta até o estralar da costura, para não cair.
Aperta como casca de uva na boca, doce pra não crer azeda.
Aperta como mãos que se beijam, olhos que não se calam.
Como corda de peão de criança, justinha pra fazer rodar
E roda, roda quanto mais madeira é, dura, seca, de metal na ponta.
Roda mais no alfalto liso que na calçada de pedra rústica
E na mão do menino roda leve, suave, embora de metal de ponta ainda seja.
Metal amalgamado, de liga, que parece duro, mas quando quente, já foi líquido.
Líquido que derramou em mim e solidificou, como rocha, que não quer quebrar, não quer sair, mas não que ficar.
Rocha que nem com água "sede", tanto bate, mas não fura, não molda, não muda.
Peso que em mim afunda, bate forte, em dupla, uma mais forte, outra mais muda.
Bate em noite e em dia, bate até me cansar doer e me desanimar, por não parar de bater.
Bate de ensurdecer, de transbordar, metal quente que ainda está, que é, que não findará de ser.
Se sonho de outros também fosse, gostaria eu de parar de bater.

9 de fev. de 2011

A fundo

Ela levantou-se no mais tardar de sua hora inventada e pôs-se a pensar como se sonhasse.
Não saciou sua fome de prazer, deixou a cafeína posta à mesa e o cigarro deitado no canto dos olhos.
Fumou as rosas do jardim e bateu a porta da frente tão forte que estremeceu seu corpo vil.
Tirou a camisola suada de sentir e correu pelo asfalto escaldante de uma noite inteira.
Correu, reluzente em cada centímetro seu, suas pernas e busto desnudos, dançando suaves no bailar dos seus olhos de gato, sorrateiros, mareados, ressacados.
Suas mãos sedentas e cansadas de noite estendidas ao céu, como que procurando a redenção inatingível da pureza maltratada, submissa, arrependida, desejada.
Assim ela partiu, com sua pele sonhada de nanquim e madrepérola, seus olhos fixos no sem fim do asfalto, cabelos longos confundindo a silhueta e a boca, seca, úmida de palavras e fios e nós.
Correu como se fugisse, partiu como se ficasse, queimou como se chovesse.
Derreteu-se debaixo de uma árvore, as costas repousadas no tronco áspero, as pernas encolhidas sobre o peito, um braço repousado nos joelhos, o outro levantado à sua frente, doce frente.
Escorreu-se seu sussurrar de baixo tom, temperando a relva do fim de tarde.
Amou como pôde.
Reinventou sua hora marcada e deitou-se,
Como se vivesse.

7 de fev. de 2011

22 de jan. de 2011

Dizem que no final do arco-íris tem um pote de ouro..
Eu nem preciso de tanto..
Bastaria o fundo da íris.

21 de jan. de 2011

Tanto

Triste Bahia, ò quanto é semelhante...
Caetano dizia ontem, no pé do meu ouvido
Percebi a semelhança no ato
Atos todos, de uma peça que parece que nem começo, meio e tampouco fim terá
Uma baía isolada, ilha no oceano da cara, cabeça e olhar
Água cercando os lados e o meio, a linha entre as curvas que do pó emergem nuas
Nua como eu, que nessa praia de mares e morros, precisei nadar sem trajes
Nado e temo, demais, ou em menos
Menos um dia
De mais, estou indo embora, de novo, mas não de mim
Tampouco de mais...

18 de jan. de 2011

Eu fico

Nesses caminhos em direção ao mar, andei a navegar pela ficção.
Necessitamos fixar um ponto um pouco aquém do horizonte, pra perceber que ele passa por nós um dia, ou nós é que passamos por ele.
Se ficcionarmos esse ponto, entretanto, pode ser que ele nunca passe, desapercebido por nosso olhar ofuscado do real.
O Carcará na beira da estrada fixa-se em sua presa e a ela não oferta redenção.
A montanha cortada me acompanha, fixa, na chapada, mas lá nem sempre esteve.
Precisamos de um pouquinho de ficção pra criar a história das montanhas e das presas do Carcará
Pra dizer na nossa, precisamos mesmo é do aficcionamento do olhar, que tudo tem de real e traz no instante a redenção, que ele próprio tanto precisa.

Parece que são muitos os meus caminhos,
mas aquele que eu quero é um só.

Da Capital de mim

Caminhos trançados a dedos, terras e mares, quem dera todos.
Ares cantarolados nos cabelos da menina, de Rio Claro à casa de paredes brancas, ali na esquina.
Planos Altos e pequenas fronteiras, do centro do país ao beco da rua que na menina mora.
Serras e arados debulhando a estrada que segue e planta, na rede ali ao lado
De são Paulo aos cinco à Estrela aos vinte e cinco, ainda do primeiro de muitos tempos.
Tempos de escudos e invernos, cristalinos, tenros, verdejantes, incessantes.
De Goiás se vai ao longe, aos 90 do tempo que não se prorroga, no velocímetro da vida que faz dele instante, pra poder viver mais, a cento e vinte por hora.

14 de jan. de 2011

Por inteiro

O dobro da minha idade é um número inteiro cujo 2 mora na companhia do 5 e, se chegar bem perto, pode formar com ele o ápice de um símbolo bonito.
No ano passado o meu dobro era uma certeza exata, 2 números que juntos formavam uma companhia redonda, também inteira.
Percebi que entre os meus 2 dobros, o passado e o presente, se esconde um numeral ainda sem par, o 5 e uma companhia solitária.
Me pergunto onde se encontra sua metade e percebo que ela não é inteira, mas uma fração, uma entrelinha entre as metades dos meus 2 dobros, que por mim já passou.
Como não sou mulher de metades, resta-me esperar que a solidão do 5 dê lugar ao duplo sentido do meu dobro atual, inteiro, que eu anseio me esperar no 2.

6 de jan. de 2011

Paradoxo

O meu canto sai seco e confuso
Como o mandacaru menino,
que não sabe se conhecerá a próxima estação
Enxergar o céu, ali do chão, não lhe basta nem acalma, mas tampouco desanima
Seu horizonte de areia é movediço como as dunas dos desertos que nunca conhecerá
E traiçoeiro,
Como as águas que ameaçam, tardam ou sequer anunciam
É o que, por instante, ainda lhe faz cantar

5 de jan. de 2011

Cartas

Era uma vez um jogo de tarô, de cartas decoradas a nanquim
Eram luas e sóis, letras e datas, fotografias cuidadosamente entranhadas na memória
O baralho era efêmero, mas se consolidava no reflexo, de uma retina na outra
Ao invés de dizer sobre o futuro, ele dizia sobre o instante, que nada tinha a ver com o tempo, em sua definição
Dizia sobre a instantânea ilusão de realidade, sem citações de Foucoult ou Arendt
Só citava o olhar
Só citava a si mesmo

A solidez era tanta, que o baralho construía jardins, paredes brancas, redes e até castelos
Mas tinha, na sua força, o espelho dos olhares...2
O castelo do tarô não era o de Calvino, nem o do Príncípe, pequenino
Era de homens e mulheres, meninos e meninas
Era de meninos grandes, e mulheres tão meninas
E era decorado por flores, e suas cartas rústicas, vagarosamente lapidadas pelo vento

A efemeridade também era tanta, por se tratar de instante, que um vento bem mais forte, talvez um vendaval, acabou por soprar as cartas, ao invés de lapidá-las
Os meninos e mulheres alocaram-se na sua realeza e se edificaram, sem a solidez do reflexo em 2
Sem o baralho de tarô

Alguns construíram novos castelos, outras deitaram-se nas redes ou se apoiaram nas paredes

Da efemeridade de uma única retina, o tarô ainda constrói os jardins
E eles têm uma única rosa, protegida pela cúpula de um príncipe menino e eterno

22 de nov. de 2010

Patavinas

Querida Professora.
Acho que não poderei fazer a prova porque tem um menino andando de skate encima dela. Precisamos urgentemente resolver esse problema!
Agradeço sua compreensão.

Eram esses os escritos da prova de um aluno do segundo colégio.
Acima dos escritos, desenhada bem grande por sobre as 10 questões com tema DNA, estava a figura de um menino sobre um skate. O desenho não chegava a ser artístico. Fora composto a caneta, com traço simples, o menino feito de "pauzinhos". O contexto, entretanto, era pura arte.
Arte por parte de todos ali presentes.
Por parte dos alunos, em não fingir que se importavam com a nota da prova ou com o fato de ela estar em branco, sobre 80% das carteiras ocupadas.
Por parte da professora, em fingir acreditar que os alunos tinham qualquer tipo de condição de responder à prova sobre um assunto tão superficialmente, pra não dizer ridiculamente abordado.
Por parte da diretora, em fingir crer que a mãe do aluno se surpreenderia ao saber de sua criatividade enviezada.
Da minha parte, em me portar como espectadora dum filme holywoodiano frente à piada generalizada que se instaura, dia após dia, no sistema educacional brasileiro.

Essa foi a prova mais criativa que eu já vi. A diretora, entretanto, não parece ter interpretado assim.
"Não servirá nem para puxar carroça", ela gritou.
Novamente eu fui artista, pra não virar, de repente, terrorista. Pratiquei da minha arte patética do "filtro auricular e mental", tão aprimorada nos meus muitos anos de graduação.
Internamente, pensei que talvez o autor da prova não fosse mesmo passível de puxar carroça. Pensei que ele poderia, depois de algum desesforço mental, virar diretor de escola. Ou quem sabe, se se aprimorasse na arte da revolta, pudesse ser um grande publicitário, e no futuro ser até contratado para fazer o slogan daquela escola e seus grandes méritos no Saresp.
Divagações, patéticas na mesma medida da aula do segundo ano.

Esse foi o mesmo aluno que, não por coincidência, esteve por vinte minutos em pé de frente para a parede num dos cantos da sala, na última prova de biologia. O motivo era simples: por duas vezes pronunciou palavras ao vento, após ter terminado a prova. "Se vocês não sabem se comportar como adultos, serão tratados como crianças", gritou a diretora naquela ocasião. Três outros alunos também estavam nos outros três cantos da sala, pelo mesmo motivo. E eu, enquanto martelava para mim mesma que crianças também eram cidadãs, permaneci fisicamente confortável, imóvel sobre a cadeira, nos vinte minutos restantes de aula.

Mas crianças não têm senso de humor muito refinado. Nem tampouco escrevem corretamente o português, ou ainda, escrevem com corcondância verbal ou coerência discursiva. Não escrevem com a ironia que permeava a prova do aluno do segundo ano.
Confesso que esbocei um sorriso de canto ao ler a prova. Me senti, ao contrário da professora e da diretora, um pouco menos parte da palhaçada escolar, embora a intenção do aluno provavelmente tenha sido justamente o contrário disso.
Senti até um fio de esperança. Não por achar que o aluno estivesse consciente de seu protesto simbólico. Tampouco por achar que os outros 79% da sala estivessem protestando silenciosamente ao não preencherem sequer o nome na folha de questões. Mas por ter a certeza de que no picadeiro estavam somente eu, a professora, a diretora e o São Paulo faz escola, e de que os alunos, não queriam sequer ser os espectadores deste patético espetáculo chamado escola.

Crianças escrevem com inocência. Jovens ou adultos insatisfeitos, utilizam-se por vezes da ironia. E aqueles que até a perspectiva da escrita já perderam, apenas continuam escrevendo...
(em veículos de comunicação  nos quais sabem que bem pouco serão lidos)

7 de ago. de 2010

Matemática e Realidade

era o nome do livro da sétima série...

Estive a pensar sobre a matemática
Sobre como as letras vieram parar na companhia dos números
Sobre como vieram a ter expoentes e até raízes
Pensei que, talvez,  a matemática, assim como quase tudo, seja mais invenção que descoberta
Pensei que, talvez, a descoberta tenha sido a proporção, e, a partir daí, tenha-se inventado uma maneira de escrever e calcular as proporções que traduziam o mundo, tal como ele é
Não que os números, e também as letras, estivessesm ocultos nas coisas, esperando para serem revelados
Talvez a lógica é que estivesse oculta no homem, no momento em que olhava para elas
Pensei que, talvez, pudessem existir outras matemáticas, que traduzissem na escrita, tanto de letras, quanto de números, uma maneira totalmente diferente de interpretar (e calcular) a proporção das coisas
E que, ainda assim, essa nova maneira pudesse criar uma nova lógica, desde que respeitasse a proporção
Mas aí pensei o porquê, se isso fosse mesmo possível,  de ninguém ainda o ter feito
E aí pensei que talvez eu é que, na minha científica ignorância, não tenha conhecimento dessas outras lógicas
Ou que, talvez, elas não tenham de fato sido pensadas porque a primeira, esta que agrupa incógnitas, tenha levado a muitas derivações de si própria e, assim, partindo já de uma idéia definida, não tenha conseguido transpassar-se a si mesma e inventar outras tantas possíveis
O mais provável é que, talvez, não tenha sido, ou seja, nada disso...

15 de jul. de 2010

sim

O não é uma palavra importante
Não sei se consigo extrair dela muita beleza, mas sei que há alguma
Talvez a beleza se esconda na força que o advérbio traz
Ou ainda, na nossa própria, ao tê-lo no pé do ouvido

É fato que muitas vezes também é difícil tê-lo como um nó na garganta, esperando pra ser pronunciado
Principalmente quando, ao pé da mente, ou do coração, temos a consideração
Ou ainda quando, ao invés desta última, nos sobra a piedade

Na verdade, não me agrada muito nenhum destes últimos substantivos
Nem tampouco o advérbio
Não tanto pelo seu uso em si mesmos, mas mais pela culpa que eles deixam pelo caminho
Um amargo na boca, nos ouvidos, na consciência
Não posso, contudo, deixar de considerá-los necessários

Talvez a beleza se encontre na complexidade humana,
na arte de transfigurar substantivos, adjetivos, advérbios
na capacidade de afirmar nos lábios uma negativa expressa nos olhos e jeito
ou de negar nas palavras uma afirmação clara no peito
Talvez a beleza esteja na expressão silenciosa de substantivos nem tão belos
ou na interpretação muda destre silêncio gritado aos quatro outros sentidos

Talvez a beleza ensinue-se no agir, perante a necessidade do não
na (também) arte de não tentar transformá-lo em sim quando da necessidade ou vontade,  tanto de sua pronúncia, quanto de sua escuta
no aceitar de sua real condição adverbial
e no refletir sobre suas possíveis razões de ser

14 de jul. de 2010

esta[ciona]dos todos

Os meses são doze e os dias, 365
Fiquei a pensar se não poderiam ser 400, pra arredondar
No retângulo do meu quarto percebi que não, pois a conta tem algo de esferas
Círculos que ficam girando dentro de um grande espiral
Perguntei-me se não poderiam ser de uma outra forma qualquer...

Esse movimento suave, meio repetitivo, me fez voltar aos doze
Doze, que invertidos são vinte e um e que, no dezembro passado, trouxeram os vinte e cinco
Dezembro é um mês que me lembra o sol, mesmo que os vinte e cinco passados tenham se passado na neve, a menos 15
Acho que a lembrança vem dos meus tempos de menina, dos meus doze anos

Todo mês tem um quê de lembrança
Uma memória coletiva que constrói estações e a ela atribui dados
Num lance qualquer, os dados as vezes se dão por algarismos, que constroem dozes, vinte e uns e vinte e cincos
Constroem um ano inteiro

Minha lembrança coletiva de Julho sempre foram duas, o sete e a praia
Mesmo com a chuva e o frio, era o único set no qual o cinza combinava mais com o mar do que o azul ou o verde
Isso dava até um filme...

Mas eu sempre gostei mesmo foi de Maio
É um nome bonito, curtinho, e tem cheiro doce, de flor
E falando em flor, eu também gosto muito de Outubro
Do céu, das cores e do aroma também
Uma amiga se perguntava sobre a função da cor dos  frutos
Eu nunca tinha pensado que deveria haver alguma, só tinha até então achado bonito
Então pensei que, se esferas fossem espirais, os 365 poderiam ser 400 e os frutos poderiam ser coloridos por terem querido roubar, das cores, a doçura
Mas como esferas ainda são esferas, dados se traduzem em números e a natureza (nos) se traduz em dados,
um lance certeiro diz que os frutos são estratégicos em sua cor, ou  é ela o próprio resultado das estragégias de outrem
Assim como são os anos em seus dias e meses, a lua em suas fases,
e como são as memórias,
estacionais

13 de jul. de 2010

Avulsas

Eu sempre tive fichários
Acho que desde a quinta série, abandonei o caderno
O fichário era muito mais moderno e podia ter folhas de diversas cores
Além disso, cabia muito mais escritos... não tinha limite de palavras

Eu sempre me perguntei porque o fichário não chamava folhário, já que dentro dele iam folhas, e não fichas
Eu sempre entendi as fichas como algo padronizado e de folha única... dados fundamentais de alguém ou alguma coisa, para um propósito definido
Ao longo dos anos, fui aumentando o número de folhas dos meus fichários
E quanto mais folhas eles tinham, menos eu olhava pra elas...

Já faz algum tempo, eu briguei feio com o fichário
Não sei ao certo o motivo da briga, só sei que nela quase entraram as canetas e os livros todos
(Canetas eu também passei a usar na quinta série)
Mas aí eu resolvi comprar um caderninho
E nele escrevi sobre tudo e todos e sobre mim
ou sobre tudo e todos em mim, ou ainda o contrário, não sei ao certo

Só sei que andei com ele por muito tempo
Tanto, que passei a pensar estar fazendo dele um fichário
As folhas não poderiam durar tanto, a menos que as anotações fossem padronizadas e fundamentais
Aí fui em busca dos meus folhários, guardados no pó do meu armarinho velho
E entendi que a briga não foi por haver padrões, ou por não haver propósitos
Foi pela economia
Não de folhas, nem de fundamentos
Mas de mim

Estou refazendo as pazes
com ele
e também as minhas
E, por via das dúvidas,
ando escrevendo a lápis...

14 de mai. de 2010

Tanto e tãopouco

Ouvindo a melodia de um antigo pas de deux, desenterrada dos meus tempos de ballet, percebi que ela tinha um "quê" de fantasma da ópera.
Fantasmas meus, mais do que de óperas quaisquer
Nenhuma relação com a música que tocou hoje cedo na academia de musculação
Talvez tenha recordado o ballet para tentar conter minha irritação às 8 da manhã, após séries de repetições diversas e 20 kilômetros rodados em um metro quadrado, vendo o jornal da manhã
Não que outrora, dançando o tal pas de deux às oito e meia da manhã de sábado, minha irritação fosse menos incisiva
Era, talvez, apenas menos intrusiva
Tempos modernos, jà hà muito tempo trás

Falamos de Chaplin na mesma aula que discutimos Foucault
As prisões do corpo, as esferas de poder
Corpos dóceis, era o tema da discussão, docilmente feita em círculo
Os mesmos círculos feitos pelos pedais abaixo dos meus pés, na academia
Docilmente eu me irreitei, já que a rebeldia seria contra mim mesma
Já a irritação, posso delegar

O delegado não interveio no roubo da bolsa da senhora, dentro da delegacia
Ele também delegou, sua função a outrem
Funcionando assim, os tempos também fazem círculos, dóceis, resignados ou abnegados, não sei ao certo
Sei que minha irritação se esvaneceu, na louça sobre a pia, no garagem repleta do xixi do meu cachorro, no pedido de uma amiga
Não nestas coisas em si, mas no que, delas, me remeti
A cerveja de ontem a noite, meu cachorro e minha amiga

13 de mai. de 2010

Voando baixo

Eu vejo o mundo com a minha história.
Estava escrito num texto do Gullar, sobre a importância do olhar.
Ele falava sobre o Barroco e eu logo abstraí a época.
Extrapolei o tempo, o conceito. Não meus olhos. Não minha realidade.
Me lembrei dos dizeres da moça da fila do banco: "aqui a gente é só mais um número".
Fiquei a pensar sobre a morada do "aqui". O banco, a Universidade, o país, o Universo.
Percebi que aquela pode ser qualquer uma e que este, o último, também.
A escala não parecia importar à tal moça. Tampouco importa a mim.
"Penso mudar o mundo usando borboletas", ouvi outro dia.

A minha história conta e enumera um mundo, só meu e de todo mundo. Meu Universo, na minha casca de todos nós.
"Ilha é tudo em nós que ainda vive, cercado por tudo que mataram", disse o Oswaldo.
Essa frase sempre me causa um enrijecimento interno, como que me transpondo à sua história, tão própria.
Tão minha.
Se nossa realidade não fosse tão própria como tenta ser apropriada, veríamos a ilha como pedaço de terra.
Eu vejo-a como todo oceano.
E alguém até pode tê-la como lágrima na cara.

Estava eu vagando em números, na fila. Números próprios, cifras, e outros estatisticamente emprestados, inexistentes. Dinheiro virtual e valores tão reais, na moça ao meu lado.
Fiz juízo aos lábios, esboçando um sorisso meio contrariado.
No sensível dos meus olhos, o que me contrariou foi não acreditar em borboletas.

10 de mai. de 2010

o outono dos meus olhos

O inverno ainda não chegou, mas o azul diferente do céu trouxe o lilás do meu cachecol
Seria primavera, se não fosse outono de ano inteiro, de novo
Seria a esperança a cair, se não fosse o esperar, demais
Esta, assim, fica meio guardada, meio inquieta, meio tentando amarelar
Não tenho parques de estações, nem as fotos dos que vi, aqui me fazem esmerecer
O lilás do meu vestido espera pra surgir na luz daquela outra lua
Lua nova, que hoje me esperou, com ares maduros de verão

o outono no Parque de Serralves, Porto, Portugal

23 de abr. de 2010

Diverso, demasiado diverso

2010. Ano da Biodiversidade. Estava escrito no caderno de um colega de curso.
A disciplina era sujestiva. Prática de Ensino.
Devido aos acontecimentos um tanto caóticos do meu dia, logo pensei num outro tipo de diversidade: a de comportamentos. Não pude deixar de pensar na prática.
A prática dos nossos dias parece ser a da paciência. E isso me remete a uma escrita minha, já de muito tempo: " que a minha abnegação não seja confundida com a resignação que eu não tenho".
Será?
Passei o dia praticando uma tentativa de paciência, que não sei bem se se encaixa na nação que resigna em mim, ou na minha negação oculta dela mesma.
Me aborreci com a casa cheirando a caldo de lixo e também com o saco de 50 kg que coloquei na rua hoje de manhã. E ao me deparar com a solução simples do meu problema malcheiroso, me deprimi. Livrei-me do meu incômodo olfativo, que outrora era permanente, para me alocar num outro incômodo, confortavemente oculto na minha inanição.
Me aborreci com as burrocracias da minha própria produção cultural, pensando ainda que estas são herdadas de outra, e outra, e outra culturas.O que me remete a uma herança humana, demasiada humana e esperançosamente dinâmica.
Me aborreci com as violências, a minha própria, e as outras tantas, de outros tantos. Me aborreci com o egoísmo, mais uma vez.
Os prazos já se passaram, junto com as mais de três cópias de cada documento que tive de reimprimir. Me aliviei ao colocar as folhas no lixo reciclável, como se assim estivesse gastando apenas metade da água e celulose que as fabicaram. O problema não é o nosso consumo, mas  sim o das indústrias, disse uma colega. Me perguntei por quem e de quem são feitas as indústrias, bem como quem as mantém.
A diversidade anda em alta ultimamente. O bom comportamento, nem tanto.
Não sei se a abnegação é melhor ou pior que a resignação.
Nem sei de fato o que é ser bom.
Em todo caso, vou tentando apostar na paciência.

18 de abr. de 2010

What I know Well and What I Know Nothing About

Na aula de inglês, a professora me pediu pra falar sobre uma coisa da qual eu soubesse bastante e sobre uma outra qualquer, da qual não eu não soubesse nada. Pensei, pensei, mas pra variar, não consegui meu foco em nada... simplesmente não consegui falar sobre nenhuma das duas coisas... então, já em casa, fiz uma reflexão sobre essa coisa de saber e não saber, e em homenagem a essa professora, fiz-a em inglês...

I have discovered, some time ago, that I know much less than I thought I knew when I was eighteen. This is the first thing that, today, I’m sure I know well: knowing just a few things. (And, because of that discovery, I also know that I’m becoming old). But I’m OK with that, because I believe that I know the most important things about people and things, and also about thoughts.

I know, for example, that there are a lot of people that really love me and really care about me. On the other hand, I also know that from all of these people, I can only ask things to a few. But more important than that, I know that it couldn’t be different, because we just can’t give enough attention to all the people that we would like to. Unfortunately, or not, we need to choose a few people to have a deep relationship with. And always, when we make a choice, we include things, and consequently, exclude others. It doesn’t mean, of course, that we don’t care about the others or that we don’t like them. It just means that we are not able, yet, to put a lot of people in the first place, before us. We can just do it with a few. This is what we call selfishness. I know that we can change this by changing the way we relate to the world, to people, animals, things, feelings and words. I know that it’s difficult, and I hope it’s possible.

I know what I’ve just had for breakfast, but I don’t have any idea of what I’m going to have for lunch or dinner. But I’m sure that I’m going to have these both meals. However, I know that there are many people that know that they are not going to have lunch or dinner, and remember well that they didn’t have breakfast too. And I don’t know why it is like that and why a lot of people think that is needs to be just like that; I know that it’s important to exercise every day, but I don’t know why I don’t do it even once a week; I know that Tchaikovsky composed the melody that I’m listening right know and that I used to dance it some time ago, but I don’t know Tchaikovsky’s first name, and I don’t also know why I can’t dance this anymore; I know that the DNA contains all the genetic information that forms an individual in all it’s morphological, chemical, physical and even behavioral aspects, but I don’t know where exactly the soul and the feelings fit in it; I know how many frog species are described nowadays, but I can’t explain the concept of specie, because until now, nobody could define it well; I know a lot of best seller books, but I don’t know more than three books by Machado de Assis. And I know that there are a lot of people in the world that don’t know how to read a book, a phrase or even their own names; I don’t know a lot of things about politics, but I do know many bad things about politicking and some good things about some few politicians; I know why socialism didn’t work out, I have some ideas why capitalism didn’t do so either, I have many ideas of why people gave up trying and, again, I don’t know why they think it needs to be like that.

I know a lot of specific things about biology, geology, medicine, anthropology, philosophy, religion, art. But I don’t know anything about my great-grandfather, not many things about my grandmother and not even the name of all my mother and father’s brothers and sisters; I know that putting all my blouses on the same hanger makes me feel really annoyed, but I know also that I would feel much more annoyed with the garbage that I would generate if I bought one hanger for each blouse of mine; I know that I love my dog, and even being a scientist, I’m still not sure that he can not love me in the same way as I do. Finally, I know that this composition may seem to be very melancholic. And I’m not sure if it really is or not. I’m thinking it might be fool, probably childlike and certainly “cliché”. But I’m not sure about that too. And actually, I don’t really care

(peço desculpas pelo inglês abrasileirado... mas o que vale é a intenção)

23 de mar. de 2010

Olhos, para que lhes quero

A aula era sobre a sensibilização do olhar. Então eu olhei.
Vi olhares atentos, cansados, vagos, alguns até vazios. E vi num deles a arrogância. Foi no meu.
Então me sensibilizei com o peso e a prepotência do olhar projetado. O meu, estava cheio de ambos naquele momento. Juízo de valor, talvez.
Não pude deixar de me lembrar do sorriso do gari que amontoou todo o lixo da rua em frente a minha casa. Era um sorriso quase azedo, um branco que reluzia em plena alvorada. Me sentiria até sensível se junto com a beleza daquele sorriso não se tivesse despertado em mim a podridão do meu próprio lixo. Então, naquele momento, o meu olhar enxia-se de caos, desânimo e auto-crítica. Não deixou de ter arrogância.

Estive a pensar sobre as estreitas relações entre o conhecer e o arrogar. É, acabo de inventar um verbo, derivado do substantivo que por duas vezes já utilizei. E olha que engraçado, acabei praticando deste (do substantivo) ao "saramaguear" um verbo novinho, só pra mim. Um não, na verdade agora dois. E mais engraçado ainda foi descobrir, logo após esta escrita, que o verbo que achei ter inventado, que incrível!!, já existia. É disso mesmo que estou falando. Da arrogância que o conhecimento traz.

Ando pensando nisso desde que me dei conta que o pensamento humano é nada mais que espiral. Desde que o homem inventou o mundo como conceito, ele conceitua idéias e ideais, que são reconceituados again and again and again. A cada vez com um atributo ou outro que se diferencia, o que faz a curva da elipse pular um pouquinho pra frente. Mas a grande parte é apenas "re".
Pensar assim me faz achar graça na palestra que vi ontem. Críticas Sobre o Conceito de Aquecimento Global. Pesquisadores dizendo, desdizendo, redizendo. Muitos vão dizer: "É assim que se produz ciência, e muito além dela, conhecimento". Eu não discordo. Só me questiono.

Também ando tendo experiências com o substantivo em questão. Algumas delas dizem respeito a extremos. Eu acho que concordo com Sócrates, sobre o diálogo.(E aí, olha eu voltando lá, em algum ponto da espiral). Mas não consigo me dar muito bem com a retórica. E o motivo é muito simples:ela se disfarça de dialética, pra na verdade ser sofisma. Mas isso é só o que eu acho.  E os extremos, que citei, têm muito a ver com isso. Com o nosso achar. Que por sua vez, têm a ver com o tal substantivo (arrogância). O grande problema do extremo, na minha opinião, é não respeitar o querer. Porque, a partir daí, ele, que poderia ser diálogo, vira oratória.
É aí que entro novamente na questão do conhecimento. O meu conhecer, de lixo, Sócrates, Saramago, aquecimento global, me permite a arrogância deste discurso. E ao dialogar com meu próprio texto, afago meu ego. E tudo isso só é fruto da sensibilização do meu olhar. Enxergo meu lixo, a ciência, os extremos de pensamento, a influência que o conhecimento traz. E não digo que o que digo é algo novo, muito pelo contrário, é o mesmo velho, o "re" do qual falei cima. Também não digo que pensar assim não é extremismo. E muito menos digo que essas idéias que aqui desabafei contribuirão para o pulo da espiral.

Livres de influência, nunca estaremos. Nem do discurso, sofisma ou diálogo.
Minhas influências pessimistas estão recheando este texto. Meu olhar extremista, sensibilizado pelo cheiro do gari, também.
Ler este texto, entretanto, é uma questão de escolha. E é disso que falo quando cito o respeito ao querer. E é do que não falo, ao falar dos extremos.

Um amigo, ontem, me disse: "É muito mais fácil ser ignorante". Eu acho que ele estava falando sobre a simplicidade. Então eu acho que, na verdade, é muito difícil ser simples. Exige menos respostas, mas não necessariamente menos perguntas. E a sede pelo saber, quando não tem resposta, tem mito.

Uma Pessoa disse que as coisas são, simplesmente, as coisas.
E outra disse: "toda vez que ouço alguém dizer que quer mudar o mundo, tenho medo"

Eu não sei quando é que temo mais. Se é quando ouço isso, ou quando não ouço nada.

11 de mar. de 2010

Música do coração

Uma amiga me chamou para ouvir um som de uma banda nova...
Antes de iniciar a música, ela me disse: "mas é meio forte..."
E a canção começou...

"Minha mão pequena bate no vidro do carro
No braço se destacam as queimaduras de cigarro
A chuva forte ensopa a camisa, o short
Qualquer dia a pneumonia me faz tossir até a morte
Uma moeda, um passe me livra do inferno,
Me faz chegar em casa e não apanhar de fio de ferro
O meu playground não tem balança, escorregador
Só mãe vadia perguntando quanto você ganhou
Jogando na cara que tentou me abortar
Que tomou umas cinco injeções pra me tirar
Quando eu era nenê tento me vender uma pá de vez
Quase fui criado por um casal inglês
Olho roxo, escoriação, porra, que foi que eu fiz?
Pra em vez de tá brincando tá colecionando cicatriz
Porque não pensou antes de abrir as pernas,
Filho não nasce pra sofrer, não pede pra vir pra Terra.

O seu papel devia ser cuidar de mim, cuidar de mim, cuidar de mim
Não me espancar, torturar, machucar, me bater, eu não pedi pra nascer
Minha goma é suja, louça sem lavar,
Seringa usada, camisinha em todo lugar
Cabelo despenteado, bafo de aguardente `
É raro quando ela escova os dentes
Várias armas dos outros muquiadas no teto
Na pia mosquitos, baratas, disputam os restos
Cenário ideal pra chocar a UNICEF,
Habitat natural onde os assassinos crescem
Eu não queria Playstation, nem bicicleta
Só ouvir a palavra "filho" da boca dela
Ouvir o grito da janela "A comida tá pronta",
Não ser espancado pra ficar no farol a noite toda
Qualquer um ora pra Deus pra pedir que ele ajude
A ter dinheiro, felicidade, saúde
Eu oro pra pedir coragem e ódio em dobro
Pra amarrar minha mãe na cama, pôr querosene e meter fogo

Outro dia a infância dominou meu coração,
Gastei o dinheiro que eu ganhei com um album do Timão
Queria ser criança normal que ninguém pune,
Que pula amarelinha, joga bolinha de gude
Cansei de só olhar o parquinho ali perto,
Senti inveja dos moleque fazendo castelo
Foda-se se eu vou morrer por isso,
Obrigado meu Deus por um dia de sorriso
À noite as costas arderam no couro da cinta,
Tacou minha cabeça no chãoBatia, Batia, me fez engolir figurinha por figurinha
Espetou meu corpo inteiro com uma faca de cozinha
Olhei pro teto e vi as armas num pacote,
Subi na mesa, catei logo a Glock
Mãe, devia te matar, mas não sou igual você
Em vez de me sujar com seu sangue eu prefiro morrer...."

E após isso, vem o barulho....

Alguém pode pensar: é exagero
O que me aterroriza é pensar que a chance é bem grande de não ser..

23 de fev. de 2010

Herói

O meu pai gosta muito da palavra mistérios
Ele sempre me diz: " A vida é cheia de mistérios"
O meu pai, pra mim, sempre foi um grande mistério...
A sua simplicidade e calma inabalávies, o seu bom humor, a sua bondade...
Eu acho q demorei 25 anos pra perceber o tamanho da minha admiração por ele..

Hoje sentamos pra conversar, como há muito não fazíamos... e eu prestei atenção a cada detalhe, como há muito não fazia... bem mais que cinco meses...
O meu pai gosta muito do céu...
Entre todos os dados numérico que ele me contou sobre a lua e os planetas (ele é muito bom em memorizar dados numéricos), ele disse a coisa mais linda que eu já ouvi : " O sol é tão grande, que ilumina o muunnndo todo... o munnndo todo"...
Disse isso olhando para um ponto fixo no horizonte, com um leve sorriso nos lábios...
Estava de noite, mas o meu sol estava ali, sentado na cadeira ao meu lado... um pouco cansado, de brilhar por tantos anos... mas ainda com um brilho tão forte, que me emocionou, como há muito não fazia...
Talvez eu esteja ficando velha...
O meu pai daria um bom astrônomo... mas aí, deixaria de fazer poesia...

Um pouco antes, estávamos assistindo à TV, eu, meu pai e minha mãe, fechados no silêncio da novela das oito e no barulho do ar condicionado da sala
Eu ouvi uma velha música que dizia: "Tem dias que eu fico pensando na vida e, sinceramente, não acho saída"...
O meu pai se levantou e foi até o andar de cima, voltou até a escada e disse: "Tem uma brisa gostosa aqui fora"...
Eu, não como de costume, dei-lhe ouvidos e fui até a brisa... e dela surgiu a simplicidade que eu, há pouco, na sala escura e fria, sentia tanta falta...
"O que fizemos, ou o que fizeram, com nossas vidas"? passei a me perguntar...
Enterramos nossos momentos de beleza na TV de plasma de 50 polegadas e nos noticiários gélidos e novelas fúteis...
Desaprendemos, desde crianças, a dar valor às conversas e à experiência dos nossos entes tão próximos e tão queridos, e em contrapartida valorizamos os ensinamentos científicos, diplomados, midiáticos
Passamos grande parte da infância e adolescência mergulados em nosso egoísmo afoito, pra depois sofrermos ao reaprender o quão belas são as palavras simples e sinceras de nossos pais, avós, bisavós...

Eu ouvi a música e me lembrei do noticiário que dizia sobre o "incidente" que matou 27 civis na guerra do afeganistão
"Esse tipo de incidente prejudica a credibilidade da Otan"... credibilidade? pensei se, algum dia, eu cheguei a dar mais credibilidade à OTAN do que ao meu pai... e me aterrozei ao pensar que, talvez, sim...
"Acontecimentos como esse podem ter um alto custo político à Casa Branca", disseram o repórtes
Custo político é cunho que eu não desejo, nunca, usar nas minhas relações.... nem isso, nem popularidade, nem nada que ateste a minha burrice, arrogância e politicagem
Desejo fazer cada vez menos política nesse vida... nem que para isso eu tenha que me resgaurdar dentro do meu mundinho... se ele tiver sóis e luas como meu pai, eu consigo, muito mais do que sobre, viver...

A senhorinha que carregava, nas costas, 3 sacos de lixo carregados de recicláveis, me desejou a bênção... e não foi porque eu lhe dei o leite que seria sua janta, mas muito mais porque eu gastei com ela cinco minutos de prosa... ela tinha os olhos verdes e o cabelo vaidosamente pintado de branco, embora suas roupas e seu cheiro de suor não demonstrassem tanta vaidade... ela me lembrou alguém, outrora bastante querido, porém que saiu da minha vida como se nunca tivesse existido...

Eu e o meu pai falamos muito hoje, como acho que nunca fizemos... eu culpo a mídia, a banalidade e a mim mesma por isso...
Ele também falou de morte...
E eu fiquei aterrorizada...

19 de fev. de 2010

Mais do mesmo

Ainda existem euros na minha carteira vermelha
No meu horizonte ainda vejo o sol se pôr no mar e a água rodar no sentido horário, embora minha pia agora esteja no hemisfério Sul
Ainda abro o armário dos copos procurando o sabão em pó, embora a máquina de lavar, aqui, não se encontre na cozinha; ainda levo minha necesseire de shampoos para o banheiro, embora aqui este se localize dentro do meu quarto; ainda me viro para o lado esquerdo, na cama, procurando o abajur, mesmo que aqui eu não possua um abajur; ainda acordo, diariamente, as 08 horas, horário de Londres...
Ainda tenho 2 malas, de 32 kilos cada, aguardando pacientemente no chão do meu quarto, porém agora para serem desfeitas
Ainda aqui permaneço, apenas 7 mil quilômetros mais deslocada...

"Já me fizeram muito mal", disse a senhorinha falante, no autocarro 18, um dia antes da minha partida...
Ela queria descer na Universidade, pois assim ficava mais perto para chegar em casa, empurrando seu carrinho de compras
Ela comentou que outrora haviam lhe dito a paragem errada pra descer, o que ocasionara seu cansaço pra chegar em casa
Eu ajudei-a a subir no autocarro e ela, ao saber do nosso destino em comum, comentou: "então me vou contigo"
Eu consenti, mas sentei-me distante, porque ela falava muitas coisas sem parar e eu queria me despedir dos caminhos da cidade
Ao parar do autocarro, no ponto da Universidade, desci com pressa para apanhar os cinco minutos finais dos serviços acadêmicos, e pensei que a senhorinha, lá no banco da frente, saberia que o ponto onde todos desciam, era o ponto requerido também por ela
Mas ao descer do autocarro, percebi que ela ainda lá permanecia, e olhava para trás, para onde outrora eu estivera sentada...
O autocarro, mais que depressa, fechou as portas e foi-se embora...
Conjecturei que ela desceria no outro ponto, também dentro da Universidade e talvez mais perto de algumas casas...
Talvez mais perto da casa da senhorinha...
Talvez...

Também o "talvez" ainda me acompanha...

A senhorinha, ao falar do mal, falava de portugueses
E eu, apática diante da sua fala e aterrorizada pelas possíveis respostas que me vieram a mente ( "a mim também" ou "ainda podem fazer muito mais"), disse apenas: pois...
E eu já não sei mais em que língua falei ou com qual nacionalidade agi, com ela...

"Um homem bom que não faz o bem, é um homem mau"...
Acho que serve pra mulheres também...

24 de jan. de 2010

gira, gira, gira...

Meus 15 euros já se foram, junto com o gás que hoje não me deu comida nem banho quentes
O deserto já se foi também, junto com os camelos e os sares coloridos
Eu é que ainda aqui permaneço, comendo um Big Taste cujo gosto me lembra à guardanapo de papel, comido por engano junto com o sanduíche
O que talvez pudesse me consolar, no típico egoísmo humano, me desola ainda mais, i. e., um senhorzinho procurando, nos restos plásticos vermelhos e amarelos da mesa ao lado, algo com gosto de papel para comer
Minha divagação em torno do sunday de chocolate se esvai, assim como a pouca fome que ainda restava

Termino de comer o Big Waste, junto com os três sachês de Ketchup, que lembram algo parecido com tomate
Me lembro das notícias sobre a companhia de avião Low Cost com a qual costumo cruzar o céu - porém não desta vez, mais - a proposta de cobrança pelo uso do banheiro à bordo
Me lembro das lojas de 1,99 made in China, e penso nos olhinhos puxados que fabricaram a bolsa vermelha de 2 euros que comprei na semana passada, e que já teve o zíper quebrado
Lembro das minas de esmeralda de Minas e da história sobre as mortes  no seu último desabamento de terra
Lembro do olhar perdido dos moços de Dublin, com seus copinhos de moedas numa das mãos e suas guarrafas de sonhos bebíveis e cheiráveis, na outra
Lembro do quadro de 200 euros com casinhas coloridas e meninos negros felizes correndo por entre seus telhados, em oferta na feira da praça de Ipanema.
Lembro da propaganda do Hostel do Rio: Favela Tour e volto ao Marrocos que não irei ao lembrar dos 10% já pagos pelo Desert Tour
Penso que devo vagar a mesa e lembro-me de jogar os plásticos e papelões com um M amarelo, no lixo reciclável
E penso: bullshit...

22 de jan. de 2010

Roda Gigante, mundo peão

Voltei das terras altas da Irlanda e, após receber as notas e constatar meu bom desenpenho nas Filosofias, já com muita fome, fui ao supermercado investir 15 euros em suprimentos para os próximos três dias que ficarei em Faro, antes de ir ao próximo, porém não ultimo destino, Marrocos.
Na saída do supermercado, com a sacola (reutilizável) lotada de plásticos, nutrientes e politicas corretas, por completa inanição, certa aquietação e alienação, um teor mediano de medo "à brasileira" e uma dose ainda incerta de arrogância, prepotência e "humanidade" (no sentido mais pessimista do adjetivo) e ainda com alta dose de sentimento de culpa e impotência, e muito desespero, neguei o que achei que fosse (já que nem ao menos me dei ao trabalho de ouvir de fato) um pedido de esmolas vindo de um homem-senhor espanhol.
Carreguei pra casa a minha sacola pesada...
Perdi a fome, a filosofia e mais uma parte do meu entusiasmo em desbravar as terras do meu mundinho...

25 de dez. de 2009

Quando os olhos dizem o que o jeito não traduz

Eu tinha um professor que cotumava sorrir com os olhos
Eu gosto dessa expressão, sorrir com os olhos
É bastante expressiva
Eles são...
Alguém já disse que são o espelho da alma
Eu acho que desta, são a nudez. O nosso forte, fraco.
Frágil fortaleza.

"Um homem precisa viajar"
Estava escrito num livro do Amir Klink.
No meu caminho de olhos estive em alguns que acariciam, muitos que silenciam, outros muitos que amam.
Me sinto bem com aqueles que  brilham.
O olhar tem muito mais de vida que de cultura.
Tem mais de gente.
Tem mais da gente.
Engana muito pouco, na contrapartida do jeito.

O taxista assaltante do Rio não me deixou ver seus olhos
E existia um aroma doce de ternura nos olhares que encontrei no caminho do meu dia. 
25 ciclos, 21 dias, 20 kilômetros a versar com o horizonte dos meus pés.
Uma alegria doce a compartilhar, em bonecos de gelo e aconchego de fósforos de aniversário.
Olhares especiais que encontramos pelo caminho.

A montanha também me olhou, olhou por mim e me abrigou a menos dez.
Dez segundos de alívio ao tanger o infinito da torre onde meus olhos riem,
e me transportam a 7 mil kilômetros mais perto de casa
Eu digo pro Amir que uma mulher também precisa viajar
Tanto quanto precisa estar em casa.

A Estrela aos meus pés

16 de dez. de 2009

I've got a feeling

...that tonight it's gonna be a good night, disseram os auto-falantes do mini-bus.
Fiquei pensando sobre a frase, visto que ainda eram 10 da manhã.
Me lembrei das outras três canções que soam incessantes na noite do Algarve.
Mas logo me esqueci, ao ouvir o Rap brasileiro que ecoava, às alturas, no celular do moço ao meu lado.
Ops, moço não, raparigo. Por aqui, o moço é pejorativo.

O auge do "good night" é sempre com a canção que diz "I don't know why".
A histeria coletiva de Sagres e Super Bock se instala na pista.
E eu, no mini-bus, pensando que vivo tendo esse sentimento, de não saber o porquê.
Não sei porque o brasileiro motorista me deixou um café pago em seu quiosque na praia de Portimão.
Mas acho que sei o motivo da minha supresa, nessas terras frias portuguesas.
Não sei porque o rapaz de touca preta fez questão de me mostrar como os homens podem ser monstros, quando se tratam com mulheres.
Mas sei porque o motorista me fez lembrar como eles podem ser doces, mesmo com café amargo.
Não sei porque as adolescentes e sua irmã gritante me seguiram quando mudei de vagão, pra tentar me livrar dos berros.
Mas sei porque encontrei, no outro vagão, uma mãe e seus dois bebês chorões.

Por ti mãe e por ti pai, tento me manter um pouco mais amena e mais quente, nesse inverno de ano inteiro.

Me ocorreu que as noites possam ser muito semelhantes, só com o aditivo do fuso-horário.
Tribos da aldeia global, como já dizia um querido amigo.
Ele disse, e muitos já tinham dito, assim como outros tantos, como eu, dirão depois.
Tribos que ciclam e reciclam, inclusive pensamentos.
Idéias e ideais, afastados apenas por uma leve inversão de vogais.
E eu não sei se tenho um ou outro, ambos ou nenhum, nesse mundo de valores invertidos que eu vejo, ou pinto.

Ganhei uma caneta de pintar tecidos, mas ainda não usei.
Tô por enquanto pintando o meu campo de ideais.
E tenho muita sorte de sempre encontrar, pelo meu caminho, alguns anjos que me ajudam a pintar meu campo de sonhos.
Hoje eu ganhei muito mais que um embrulho de natal.
Agradeço.

24 de nov. de 2009

Tende piedade de nós


"Óh Deus, tirai os pecados do mundo!",
disse a senhorinha cantora de uma bonita catedral do Porto.
Glória a Deus ela cantava, com voz quase angelical.
Digo quase, pois não cabe aos homens serem anjos, principalmente na casa do Senhor.
Se o murmurar cansado do padre em nada me cativava a permanência,
a doce voz da senhorinha e a imensidão imponente da Morada Divina me prendiam ao banco.
A imponência, a muito já se sabe, intui fazer-nos sentir infinitamente pequenos.
É para nos dar a dimensão de nossa insignificância.
Entretanto, eu não me sinto pequena perante ao ouro que reveste as  pedras do interior, aos azulejos delicadamente pintados no lado de fora ou ainda, ao branco da batina.
Sinto-me impotente.
A mesma impotência que sinto ao ver a pobreza nos nossos faróis, e até nesta praça em frente à Catedral.
Aquela mesma (impotência), que se ensena sobre meu imaginar, e quase até sentir, da aflição dos pecadores em murmúrios de redenção aos anjos e padres. Pinturas de memórias azuis, nos azulejos do poder divino.

Andamos delegando a Deus funções deveras. Funções de homens, "à sua imagem e semelhança".

O meu Porto-seguro não encontro em nenhuma Catedral.
Ele está no instante, aquele, que não me deixa admirar em demasia a arquitetura do berço cultural ocidental.
Que não me deixa, em verdade em verdade vos digo, admirar demasiado a própria cultura.
Consigo me prender mais às folhas amareladas que anunciam o findar do outono.
Não darei moedas à coroinha anciã, assim como não as dou ao menino negro habitante dos faróis abaixo do equador.
Assim como não as dei para comprar o pãozinho regado à toxico da moça-senhora moradora da rua da Catedral.
Deus mora na minha casa e nela também moram muitos anjos.
A minha casa está bem longe daqui. Ela é onde toda a gente está, mas ao contrário do que diria Arnaldo, não é em todo lugar.

"There's no way like home", já dizia uma música qualquer.

Parque da Galeria de Arte Moderna Serralves, na cidade do Porto

6 de nov. de 2009

Todas as cores

A atual Economia não compra meias coloridas
Ela é bastante cinza, preta, social
Engraçado esse termo, social
Vestir social é vestir-se bem, traje sério, de indivíduos comprometidos
Traje de seres sociais
Todos os dias, ao acordar, trajamos nossos seres sociais
Trajamo-nos a forma que melhor nos cabe para, talvez, caber em algum lugar
Ditamos o nosso ser de acordo com nosso almejado caber
O nosso ser social, apenas
O outro, o essencial, da essência, damos um jeito de colocar por baixo dos trajes, tratando-o como segunda pele
Então, munidos de nossas vestimentas, as duas, lá vamos nós, socializar
Durante os dias, úteis, comercializamos nossa sociabilidade
Nas noites, úteis também, sociabilizamos os rendimentos
E nos dias e noites já sem utilidade, despimos, sociavelmente ou não, nossos seres essenciais

A Glorinha Calil, Fantástica! consultora de moda, disse que a nossa moda fala de nós por si só
Pois eu acho que a moda é muda, cega e surda em si mesma...mas pode ver demais, ouvir de menos, e falar ainda mais, pela interpretação dos outros
Seres sociais

Minha colega disse-me sobre a evolução do pensamento do gênero Homo
Neuropsicologia
Psicologia Social
Um aspirante a psicólogo me perguntou porque eu andava a cursar Filosofia
Bio-ética, ele disse?
Não, não. Apenas uma tentativa de definir a própria ética, e com sorte, entender sua não existência

A Sociologia tentou, mas não entendeu as meias
A Economia já logo pensou no preço dos sapatos fechados, de salto, brilhantes, lustrados
A Psicologia analisou cada cor e o conjunto da obra, no pé-manequim
As Ciências da Educação e da Formação teorizavam tanto sobre a semântica, dialética, retórica e meiêutica, que nem sequer notoram as cores
A Biologia nem ao menos reconheceu as meias, já que andava descalço

Um professor deu a dica, comentou sobre a palidez do dia
Mesmo assim, as ciências não entenderam...

As meias coloridas, simplesmente, coloriam o dia
O meu.

Seres socíais, nem sempre, porém, sociáveis

31 de out. de 2009

À noite à[dentro]

Ontem eu tive medo da chuva.
Tentei me abrigar da tempestade tua,
tentei me abrigar em ti.
Busquei tolices em passatempos de menina,
cruzei olhares em passos bambos, castelos de sonhos, sorrisos e lágrimas.
Silenciei-te em mim, e do teu silêncio me acometi.

Abriguei-me na sorte, na sacada e dentro do quarto.
Atirei-me na fuga, no sono, no livro aberto, nas palavras.

Roubei-te a cena, pesquei-te os mares, o sol, a doçura e rebeldia.
Vesti-me em branco, cinza e lilás.
Li-me lá, na estrela tua, em preto e branco e degradê.
Pintei o arco, a flecha, juntei o pó e fiz-me sino,
e ecoei pela viagem peito adentro.

Alimentei-te em mim, em prosa, verso e canção.
Cansei, deitei, e dormi, então.

30 de out. de 2009

Mecanicismo

A Faixa é como um mantra.
Enfeitiça, e faz parar ao menor sinal de movimento.
Pode-se estar em alta velocidade, podem ser autocarros que só cabem dois.
O fato é que todos, fielmente, se rendem à Ela.
Ela é branca, feita de listras largas dispostas em pararelo. Não tem nada demais.
Nada de novo, nada de diferente. É igual às tantas outras, de tantas nacionalidades.
Mas as daqui, do centro do mundo, fazem parar.
Isso me chamou a atenção. Me encantou por um momento.
Me levou a uma profunda reflexão sobre a origem do poder Dela.
Conjecturei que, talvez, o costume fosse advindo da cidadania.
Esta minha mania meio platônica de pensar o homem naturalmente bom.
Embora com esse romancear, antiquadamente neoneoneo-clássico, por vezes ironizei o poder Dela.
Lembrei, racional e biologicamente, sobre o reforço negativo aos cães.
Pensei, repetidamente,sobre o reflexo condicionado.
Formulei uma teoria mais provável e sistemática para a magnitude Dela, na tentativa de refutar a minha constante Antiguidade.
Passei um bom tempo nesse sarcasmo afoito.
Mas a doçura do rígido brecar dos autos(carros)  foi, aos poucos, despertando o meu sensurado Platão.
Até que um brecar, mais rígido que o usual, me trouxe novamente ao mundo sensível.
Não havia movimento sobre Ela, mas deste havia iminência.
Era um perfume branco, antigo, com o cheiro do tempo, a esperar por alguém. Inadivertidamente, à beira da Faixa.
Ao perceber, meio demoradamente - como é comum a esses aromas antigos, que a muitos olfatos já serviram -, o rígido e politizado ranger de freios, um aceno de mão, meio sem jeito, frágil - como também lhes é comum ser -, disse o imperdoável: "Meu Filho, não haverá o cruzar asfalto. Desculpe-me. Podes passar".
E então, grosseiramente, o inteligível largou-se no plano das idéias e deu lugar ao insensível. " E O QUE FAZES AÍ PARADA ENTÃO, MULHER!?"
Sufoquei, de novo e com todo o cuidado, o Platão dentro de mim.

"Ela"

29 de out. de 2009



Uma amiga perguntou, não diretamente a mim, o que fazer quando as coisas estão difíceis.
Pois só o que sei é que os horizontes nunca são os mesmos, embora o céu seja um só.
Talvez a perspectiva é que mude.



Uma amiga perguntou, não diretamente a mim, o que fazer quando as coisas estão difíceis.
Pois só o que sei é que os horizontes nunca são os mesmos, embora o céu seja um só.
Ou será que é a perspectiva

28 de out. de 2009

Verso

As vezes me pergunto porque as pessoas de mais idade andam a falar com desconhecidos.
Talvez seja o tempo já vivido, que traz a ausência da vergonha
Talvez seja a solidão, que esse mesmo tempo traz.
Talvez sejam ambas, conjugadas e resultadas na necessidade da prosa.
Me pergunto se a prosa por vezes não é verso, apenas desabercebido.
Me pergunto se a fala é qualquer uma, ou se é a flor da idade que assim a faz parecer.
Imagino se os versos ditos são mais para quem os diz, ou mais para quem os ouve.
Concluo que são ambos e nenhum.

Demasiado humano



Biquini e camiseta larga por cima.
Água. Salgada.

Biquini, já sem camiseta.
Já fora d´água.

Toalha envolvendo o biquíni, molhado.

Toalha no corpo nú.
Areia.

Nem toalha, nem biquíni. Corpo totalmente nú.
Areia. Corpo seco.

Calcinha, sultien, blusinha, calça, blusa de frio (?), óculos de sol, chapéu, chinelo (?), colar de prata.
Areia.
Areia na calça branca, debaixo do guarda-sol.

Sol, mar, areia.
Biquini, nenhuma roupa, roupa demais.

Cachorrinho.
Pêlos, areia...e bolinha.

Os seres humanos são, no mínimo, peculiarmente engraçados.

Solamente

Uma negra carregando, graciosamente, uma grande tábua apoiada na cabeça. Só.
Uma garrafa de vinho barato e um vidro de bronzeador de coco abandonados na areia da praia. Sós.
Um cão sendo apedrejado por garotos na beira do mar. Os últimos, na companhia de seus pais. O primeiro, Só.
Um mergulhão em sua caça frustrada, banhado pela poeira de água esguichada por um jet esqui. Acompanhadamente Só.
Uma senhora sentada em frente ao mar, proferindo palavras soltas e tão sinceras: "ahh, o mar..". Incrivelmente Só.
Um espanhol pedindo moedas para apanhar o trem na porta da estação. Alcoolicamente Só.
Cenas singularmente capturadas em meio ao frenesi de acontecimentos diários.
O mendigo cantador da praça do Fórum.
Fotografias recortadas, editadas pelo olhar e revisitadas pela memória que faz do velho, novo, e do novo, o mesmo pálido e recorrente velho.
As coisas são, simplesmente, as coisas.


Vista do Pier da Marina de Faro, Algarve, Portugal