15 de jul. de 2010

sim

O não é uma palavra importante
Não sei se consigo extrair dela muita beleza, mas sei que há alguma
Talvez a beleza se esconda na força que o advérbio traz
Ou ainda, na nossa própria, ao tê-lo no pé do ouvido

É fato que muitas vezes também é difícil tê-lo como um nó na garganta, esperando pra ser pronunciado
Principalmente quando, ao pé da mente, ou do coração, temos a consideração
Ou ainda quando, ao invés desta última, nos sobra a piedade

Na verdade, não me agrada muito nenhum destes últimos substantivos
Nem tampouco o advérbio
Não tanto pelo seu uso em si mesmos, mas mais pela culpa que eles deixam pelo caminho
Um amargo na boca, nos ouvidos, na consciência
Não posso, contudo, deixar de considerá-los necessários

Talvez a beleza se encontre na complexidade humana,
na arte de transfigurar substantivos, adjetivos, advérbios
na capacidade de afirmar nos lábios uma negativa expressa nos olhos e jeito
ou de negar nas palavras uma afirmação clara no peito
Talvez a beleza esteja na expressão silenciosa de substantivos nem tão belos
ou na interpretação muda destre silêncio gritado aos quatro outros sentidos

Talvez a beleza ensinue-se no agir, perante a necessidade do não
na (também) arte de não tentar transformá-lo em sim quando da necessidade ou vontade,  tanto de sua pronúncia, quanto de sua escuta
no aceitar de sua real condição adverbial
e no refletir sobre suas possíveis razões de ser

14 de jul. de 2010

esta[ciona]dos todos

Os meses são doze e os dias, 365
Fiquei a pensar se não poderiam ser 400, pra arredondar
No retângulo do meu quarto percebi que não, pois a conta tem algo de esferas
Círculos que ficam girando dentro de um grande espiral
Perguntei-me se não poderiam ser de uma outra forma qualquer...

Esse movimento suave, meio repetitivo, me fez voltar aos doze
Doze, que invertidos são vinte e um e que, no dezembro passado, trouxeram os vinte e cinco
Dezembro é um mês que me lembra o sol, mesmo que os vinte e cinco passados tenham se passado na neve, a menos 15
Acho que a lembrança vem dos meus tempos de menina, dos meus doze anos

Todo mês tem um quê de lembrança
Uma memória coletiva que constrói estações e a ela atribui dados
Num lance qualquer, os dados as vezes se dão por algarismos, que constroem dozes, vinte e uns e vinte e cincos
Constroem um ano inteiro

Minha lembrança coletiva de Julho sempre foram duas, o sete e a praia
Mesmo com a chuva e o frio, era o único set no qual o cinza combinava mais com o mar do que o azul ou o verde
Isso dava até um filme...

Mas eu sempre gostei mesmo foi de Maio
É um nome bonito, curtinho, e tem cheiro doce, de flor
E falando em flor, eu também gosto muito de Outubro
Do céu, das cores e do aroma também
Uma amiga se perguntava sobre a função da cor dos  frutos
Eu nunca tinha pensado que deveria haver alguma, só tinha até então achado bonito
Então pensei que, se esferas fossem espirais, os 365 poderiam ser 400 e os frutos poderiam ser coloridos por terem querido roubar, das cores, a doçura
Mas como esferas ainda são esferas, dados se traduzem em números e a natureza (nos) se traduz em dados,
um lance certeiro diz que os frutos são estratégicos em sua cor, ou  é ela o próprio resultado das estragégias de outrem
Assim como são os anos em seus dias e meses, a lua em suas fases,
e como são as memórias,
estacionais

13 de jul. de 2010

Avulsas

Eu sempre tive fichários
Acho que desde a quinta série, abandonei o caderno
O fichário era muito mais moderno e podia ter folhas de diversas cores
Além disso, cabia muito mais escritos... não tinha limite de palavras

Eu sempre me perguntei porque o fichário não chamava folhário, já que dentro dele iam folhas, e não fichas
Eu sempre entendi as fichas como algo padronizado e de folha única... dados fundamentais de alguém ou alguma coisa, para um propósito definido
Ao longo dos anos, fui aumentando o número de folhas dos meus fichários
E quanto mais folhas eles tinham, menos eu olhava pra elas...

Já faz algum tempo, eu briguei feio com o fichário
Não sei ao certo o motivo da briga, só sei que nela quase entraram as canetas e os livros todos
(Canetas eu também passei a usar na quinta série)
Mas aí eu resolvi comprar um caderninho
E nele escrevi sobre tudo e todos e sobre mim
ou sobre tudo e todos em mim, ou ainda o contrário, não sei ao certo

Só sei que andei com ele por muito tempo
Tanto, que passei a pensar estar fazendo dele um fichário
As folhas não poderiam durar tanto, a menos que as anotações fossem padronizadas e fundamentais
Aí fui em busca dos meus folhários, guardados no pó do meu armarinho velho
E entendi que a briga não foi por haver padrões, ou por não haver propósitos
Foi pela economia
Não de folhas, nem de fundamentos
Mas de mim

Estou refazendo as pazes
com ele
e também as minhas
E, por via das dúvidas,
ando escrevendo a lápis...

14 de mai. de 2010

Tanto e tãopouco

Ouvindo a melodia de um antigo pas de deux, desenterrada dos meus tempos de ballet, percebi que ela tinha um "quê" de fantasma da ópera.
Fantasmas meus, mais do que de óperas quaisquer
Nenhuma relação com a música que tocou hoje cedo na academia de musculação
Talvez tenha recordado o ballet para tentar conter minha irritação às 8 da manhã, após séries de repetições diversas e 20 kilômetros rodados em um metro quadrado, vendo o jornal da manhã
Não que outrora, dançando o tal pas de deux às oito e meia da manhã de sábado, minha irritação fosse menos incisiva
Era, talvez, apenas menos intrusiva
Tempos modernos, jà hà muito tempo trás

Falamos de Chaplin na mesma aula que discutimos Foucault
As prisões do corpo, as esferas de poder
Corpos dóceis, era o tema da discussão, docilmente feita em círculo
Os mesmos círculos feitos pelos pedais abaixo dos meus pés, na academia
Docilmente eu me irreitei, já que a rebeldia seria contra mim mesma
Já a irritação, posso delegar

O delegado não interveio no roubo da bolsa da senhora, dentro da delegacia
Ele também delegou, sua função a outrem
Funcionando assim, os tempos também fazem círculos, dóceis, resignados ou abnegados, não sei ao certo
Sei que minha irritação se esvaneceu, na louça sobre a pia, no garagem repleta do xixi do meu cachorro, no pedido de uma amiga
Não nestas coisas em si, mas no que, delas, me remeti
A cerveja de ontem a noite, meu cachorro e minha amiga

13 de mai. de 2010

Voando baixo

Eu vejo o mundo com a minha história.
Estava escrito num texto do Gullar, sobre a importância do olhar.
Ele falava sobre o Barroco e eu logo abstraí a época.
Extrapolei o tempo, o conceito. Não meus olhos. Não minha realidade.
Me lembrei dos dizeres da moça da fila do banco: "aqui a gente é só mais um número".
Fiquei a pensar sobre a morada do "aqui". O banco, a Universidade, o país, o Universo.
Percebi que aquela pode ser qualquer uma e que este, o último, também.
A escala não parecia importar à tal moça. Tampouco importa a mim.
"Penso mudar o mundo usando borboletas", ouvi outro dia.

A minha história conta e enumera um mundo, só meu e de todo mundo. Meu Universo, na minha casca de todos nós.
"Ilha é tudo em nós que ainda vive, cercado por tudo que mataram", disse o Oswaldo.
Essa frase sempre me causa um enrijecimento interno, como que me transpondo à sua história, tão própria.
Tão minha.
Se nossa realidade não fosse tão própria como tenta ser apropriada, veríamos a ilha como pedaço de terra.
Eu vejo-a como todo oceano.
E alguém até pode tê-la como lágrima na cara.

Estava eu vagando em números, na fila. Números próprios, cifras, e outros estatisticamente emprestados, inexistentes. Dinheiro virtual e valores tão reais, na moça ao meu lado.
Fiz juízo aos lábios, esboçando um sorisso meio contrariado.
No sensível dos meus olhos, o que me contrariou foi não acreditar em borboletas.

10 de mai. de 2010

o outono dos meus olhos

O inverno ainda não chegou, mas o azul diferente do céu trouxe o lilás do meu cachecol
Seria primavera, se não fosse outono de ano inteiro, de novo
Seria a esperança a cair, se não fosse o esperar, demais
Esta, assim, fica meio guardada, meio inquieta, meio tentando amarelar
Não tenho parques de estações, nem as fotos dos que vi, aqui me fazem esmerecer
O lilás do meu vestido espera pra surgir na luz daquela outra lua
Lua nova, que hoje me esperou, com ares maduros de verão

o outono no Parque de Serralves, Porto, Portugal

23 de abr. de 2010

Diverso, demasiado diverso

2010. Ano da Biodiversidade. Estava escrito no caderno de um colega de curso.
A disciplina era sujestiva. Prática de Ensino.
Devido aos acontecimentos um tanto caóticos do meu dia, logo pensei num outro tipo de diversidade: a de comportamentos. Não pude deixar de pensar na prática.
A prática dos nossos dias parece ser a da paciência. E isso me remete a uma escrita minha, já de muito tempo: " que a minha abnegação não seja confundida com a resignação que eu não tenho".
Será?
Passei o dia praticando uma tentativa de paciência, que não sei bem se se encaixa na nação que resigna em mim, ou na minha negação oculta dela mesma.
Me aborreci com a casa cheirando a caldo de lixo e também com o saco de 50 kg que coloquei na rua hoje de manhã. E ao me deparar com a solução simples do meu problema malcheiroso, me deprimi. Livrei-me do meu incômodo olfativo, que outrora era permanente, para me alocar num outro incômodo, confortavemente oculto na minha inanição.
Me aborreci com as burrocracias da minha própria produção cultural, pensando ainda que estas são herdadas de outra, e outra, e outra culturas.O que me remete a uma herança humana, demasiada humana e esperançosamente dinâmica.
Me aborreci com as violências, a minha própria, e as outras tantas, de outros tantos. Me aborreci com o egoísmo, mais uma vez.
Os prazos já se passaram, junto com as mais de três cópias de cada documento que tive de reimprimir. Me aliviei ao colocar as folhas no lixo reciclável, como se assim estivesse gastando apenas metade da água e celulose que as fabicaram. O problema não é o nosso consumo, mas  sim o das indústrias, disse uma colega. Me perguntei por quem e de quem são feitas as indústrias, bem como quem as mantém.
A diversidade anda em alta ultimamente. O bom comportamento, nem tanto.
Não sei se a abnegação é melhor ou pior que a resignação.
Nem sei de fato o que é ser bom.
Em todo caso, vou tentando apostar na paciência.

18 de abr. de 2010

What I know Well and What I Know Nothing About

Na aula de inglês, a professora me pediu pra falar sobre uma coisa da qual eu soubesse bastante e sobre uma outra qualquer, da qual não eu não soubesse nada. Pensei, pensei, mas pra variar, não consegui meu foco em nada... simplesmente não consegui falar sobre nenhuma das duas coisas... então, já em casa, fiz uma reflexão sobre essa coisa de saber e não saber, e em homenagem a essa professora, fiz-a em inglês...

I have discovered, some time ago, that I know much less than I thought I knew when I was eighteen. This is the first thing that, today, I’m sure I know well: knowing just a few things. (And, because of that discovery, I also know that I’m becoming old). But I’m OK with that, because I believe that I know the most important things about people and things, and also about thoughts.

I know, for example, that there are a lot of people that really love me and really care about me. On the other hand, I also know that from all of these people, I can only ask things to a few. But more important than that, I know that it couldn’t be different, because we just can’t give enough attention to all the people that we would like to. Unfortunately, or not, we need to choose a few people to have a deep relationship with. And always, when we make a choice, we include things, and consequently, exclude others. It doesn’t mean, of course, that we don’t care about the others or that we don’t like them. It just means that we are not able, yet, to put a lot of people in the first place, before us. We can just do it with a few. This is what we call selfishness. I know that we can change this by changing the way we relate to the world, to people, animals, things, feelings and words. I know that it’s difficult, and I hope it’s possible.

I know what I’ve just had for breakfast, but I don’t have any idea of what I’m going to have for lunch or dinner. But I’m sure that I’m going to have these both meals. However, I know that there are many people that know that they are not going to have lunch or dinner, and remember well that they didn’t have breakfast too. And I don’t know why it is like that and why a lot of people think that is needs to be just like that; I know that it’s important to exercise every day, but I don’t know why I don’t do it even once a week; I know that Tchaikovsky composed the melody that I’m listening right know and that I used to dance it some time ago, but I don’t know Tchaikovsky’s first name, and I don’t also know why I can’t dance this anymore; I know that the DNA contains all the genetic information that forms an individual in all it’s morphological, chemical, physical and even behavioral aspects, but I don’t know where exactly the soul and the feelings fit in it; I know how many frog species are described nowadays, but I can’t explain the concept of specie, because until now, nobody could define it well; I know a lot of best seller books, but I don’t know more than three books by Machado de Assis. And I know that there are a lot of people in the world that don’t know how to read a book, a phrase or even their own names; I don’t know a lot of things about politics, but I do know many bad things about politicking and some good things about some few politicians; I know why socialism didn’t work out, I have some ideas why capitalism didn’t do so either, I have many ideas of why people gave up trying and, again, I don’t know why they think it needs to be like that.

I know a lot of specific things about biology, geology, medicine, anthropology, philosophy, religion, art. But I don’t know anything about my great-grandfather, not many things about my grandmother and not even the name of all my mother and father’s brothers and sisters; I know that putting all my blouses on the same hanger makes me feel really annoyed, but I know also that I would feel much more annoyed with the garbage that I would generate if I bought one hanger for each blouse of mine; I know that I love my dog, and even being a scientist, I’m still not sure that he can not love me in the same way as I do. Finally, I know that this composition may seem to be very melancholic. And I’m not sure if it really is or not. I’m thinking it might be fool, probably childlike and certainly “cliché”. But I’m not sure about that too. And actually, I don’t really care

(peço desculpas pelo inglês abrasileirado... mas o que vale é a intenção)

23 de mar. de 2010

Olhos, para que lhes quero

A aula era sobre a sensibilização do olhar. Então eu olhei.
Vi olhares atentos, cansados, vagos, alguns até vazios. E vi num deles a arrogância. Foi no meu.
Então me sensibilizei com o peso e a prepotência do olhar projetado. O meu, estava cheio de ambos naquele momento. Juízo de valor, talvez.
Não pude deixar de me lembrar do sorriso do gari que amontoou todo o lixo da rua em frente a minha casa. Era um sorriso quase azedo, um branco que reluzia em plena alvorada. Me sentiria até sensível se junto com a beleza daquele sorriso não se tivesse despertado em mim a podridão do meu próprio lixo. Então, naquele momento, o meu olhar enxia-se de caos, desânimo e auto-crítica. Não deixou de ter arrogância.

Estive a pensar sobre as estreitas relações entre o conhecer e o arrogar. É, acabo de inventar um verbo, derivado do substantivo que por duas vezes já utilizei. E olha que engraçado, acabei praticando deste (do substantivo) ao "saramaguear" um verbo novinho, só pra mim. Um não, na verdade agora dois. E mais engraçado ainda foi descobrir, logo após esta escrita, que o verbo que achei ter inventado, que incrível!!, já existia. É disso mesmo que estou falando. Da arrogância que o conhecimento traz.

Ando pensando nisso desde que me dei conta que o pensamento humano é nada mais que espiral. Desde que o homem inventou o mundo como conceito, ele conceitua idéias e ideais, que são reconceituados again and again and again. A cada vez com um atributo ou outro que se diferencia, o que faz a curva da elipse pular um pouquinho pra frente. Mas a grande parte é apenas "re".
Pensar assim me faz achar graça na palestra que vi ontem. Críticas Sobre o Conceito de Aquecimento Global. Pesquisadores dizendo, desdizendo, redizendo. Muitos vão dizer: "É assim que se produz ciência, e muito além dela, conhecimento". Eu não discordo. Só me questiono.

Também ando tendo experiências com o substantivo em questão. Algumas delas dizem respeito a extremos. Eu acho que concordo com Sócrates, sobre o diálogo.(E aí, olha eu voltando lá, em algum ponto da espiral). Mas não consigo me dar muito bem com a retórica. E o motivo é muito simples:ela se disfarça de dialética, pra na verdade ser sofisma. Mas isso é só o que eu acho.  E os extremos, que citei, têm muito a ver com isso. Com o nosso achar. Que por sua vez, têm a ver com o tal substantivo (arrogância). O grande problema do extremo, na minha opinião, é não respeitar o querer. Porque, a partir daí, ele, que poderia ser diálogo, vira oratória.
É aí que entro novamente na questão do conhecimento. O meu conhecer, de lixo, Sócrates, Saramago, aquecimento global, me permite a arrogância deste discurso. E ao dialogar com meu próprio texto, afago meu ego. E tudo isso só é fruto da sensibilização do meu olhar. Enxergo meu lixo, a ciência, os extremos de pensamento, a influência que o conhecimento traz. E não digo que o que digo é algo novo, muito pelo contrário, é o mesmo velho, o "re" do qual falei cima. Também não digo que pensar assim não é extremismo. E muito menos digo que essas idéias que aqui desabafei contribuirão para o pulo da espiral.

Livres de influência, nunca estaremos. Nem do discurso, sofisma ou diálogo.
Minhas influências pessimistas estão recheando este texto. Meu olhar extremista, sensibilizado pelo cheiro do gari, também.
Ler este texto, entretanto, é uma questão de escolha. E é disso que falo quando cito o respeito ao querer. E é do que não falo, ao falar dos extremos.

Um amigo, ontem, me disse: "É muito mais fácil ser ignorante". Eu acho que ele estava falando sobre a simplicidade. Então eu acho que, na verdade, é muito difícil ser simples. Exige menos respostas, mas não necessariamente menos perguntas. E a sede pelo saber, quando não tem resposta, tem mito.

Uma Pessoa disse que as coisas são, simplesmente, as coisas.
E outra disse: "toda vez que ouço alguém dizer que quer mudar o mundo, tenho medo"

Eu não sei quando é que temo mais. Se é quando ouço isso, ou quando não ouço nada.

11 de mar. de 2010

Música do coração

Uma amiga me chamou para ouvir um som de uma banda nova...
Antes de iniciar a música, ela me disse: "mas é meio forte..."
E a canção começou...

"Minha mão pequena bate no vidro do carro
No braço se destacam as queimaduras de cigarro
A chuva forte ensopa a camisa, o short
Qualquer dia a pneumonia me faz tossir até a morte
Uma moeda, um passe me livra do inferno,
Me faz chegar em casa e não apanhar de fio de ferro
O meu playground não tem balança, escorregador
Só mãe vadia perguntando quanto você ganhou
Jogando na cara que tentou me abortar
Que tomou umas cinco injeções pra me tirar
Quando eu era nenê tento me vender uma pá de vez
Quase fui criado por um casal inglês
Olho roxo, escoriação, porra, que foi que eu fiz?
Pra em vez de tá brincando tá colecionando cicatriz
Porque não pensou antes de abrir as pernas,
Filho não nasce pra sofrer, não pede pra vir pra Terra.

O seu papel devia ser cuidar de mim, cuidar de mim, cuidar de mim
Não me espancar, torturar, machucar, me bater, eu não pedi pra nascer
Minha goma é suja, louça sem lavar,
Seringa usada, camisinha em todo lugar
Cabelo despenteado, bafo de aguardente `
É raro quando ela escova os dentes
Várias armas dos outros muquiadas no teto
Na pia mosquitos, baratas, disputam os restos
Cenário ideal pra chocar a UNICEF,
Habitat natural onde os assassinos crescem
Eu não queria Playstation, nem bicicleta
Só ouvir a palavra "filho" da boca dela
Ouvir o grito da janela "A comida tá pronta",
Não ser espancado pra ficar no farol a noite toda
Qualquer um ora pra Deus pra pedir que ele ajude
A ter dinheiro, felicidade, saúde
Eu oro pra pedir coragem e ódio em dobro
Pra amarrar minha mãe na cama, pôr querosene e meter fogo

Outro dia a infância dominou meu coração,
Gastei o dinheiro que eu ganhei com um album do Timão
Queria ser criança normal que ninguém pune,
Que pula amarelinha, joga bolinha de gude
Cansei de só olhar o parquinho ali perto,
Senti inveja dos moleque fazendo castelo
Foda-se se eu vou morrer por isso,
Obrigado meu Deus por um dia de sorriso
À noite as costas arderam no couro da cinta,
Tacou minha cabeça no chãoBatia, Batia, me fez engolir figurinha por figurinha
Espetou meu corpo inteiro com uma faca de cozinha
Olhei pro teto e vi as armas num pacote,
Subi na mesa, catei logo a Glock
Mãe, devia te matar, mas não sou igual você
Em vez de me sujar com seu sangue eu prefiro morrer...."

E após isso, vem o barulho....

Alguém pode pensar: é exagero
O que me aterroriza é pensar que a chance é bem grande de não ser..

23 de fev. de 2010

Herói

O meu pai gosta muito da palavra mistérios
Ele sempre me diz: " A vida é cheia de mistérios"
O meu pai, pra mim, sempre foi um grande mistério...
A sua simplicidade e calma inabalávies, o seu bom humor, a sua bondade...
Eu acho q demorei 25 anos pra perceber o tamanho da minha admiração por ele..

Hoje sentamos pra conversar, como há muito não fazíamos... e eu prestei atenção a cada detalhe, como há muito não fazia... bem mais que cinco meses...
O meu pai gosta muito do céu...
Entre todos os dados numérico que ele me contou sobre a lua e os planetas (ele é muito bom em memorizar dados numéricos), ele disse a coisa mais linda que eu já ouvi : " O sol é tão grande, que ilumina o muunnndo todo... o munnndo todo"...
Disse isso olhando para um ponto fixo no horizonte, com um leve sorriso nos lábios...
Estava de noite, mas o meu sol estava ali, sentado na cadeira ao meu lado... um pouco cansado, de brilhar por tantos anos... mas ainda com um brilho tão forte, que me emocionou, como há muito não fazia...
Talvez eu esteja ficando velha...
O meu pai daria um bom astrônomo... mas aí, deixaria de fazer poesia...

Um pouco antes, estávamos assistindo à TV, eu, meu pai e minha mãe, fechados no silêncio da novela das oito e no barulho do ar condicionado da sala
Eu ouvi uma velha música que dizia: "Tem dias que eu fico pensando na vida e, sinceramente, não acho saída"...
O meu pai se levantou e foi até o andar de cima, voltou até a escada e disse: "Tem uma brisa gostosa aqui fora"...
Eu, não como de costume, dei-lhe ouvidos e fui até a brisa... e dela surgiu a simplicidade que eu, há pouco, na sala escura e fria, sentia tanta falta...
"O que fizemos, ou o que fizeram, com nossas vidas"? passei a me perguntar...
Enterramos nossos momentos de beleza na TV de plasma de 50 polegadas e nos noticiários gélidos e novelas fúteis...
Desaprendemos, desde crianças, a dar valor às conversas e à experiência dos nossos entes tão próximos e tão queridos, e em contrapartida valorizamos os ensinamentos científicos, diplomados, midiáticos
Passamos grande parte da infância e adolescência mergulados em nosso egoísmo afoito, pra depois sofrermos ao reaprender o quão belas são as palavras simples e sinceras de nossos pais, avós, bisavós...

Eu ouvi a música e me lembrei do noticiário que dizia sobre o "incidente" que matou 27 civis na guerra do afeganistão
"Esse tipo de incidente prejudica a credibilidade da Otan"... credibilidade? pensei se, algum dia, eu cheguei a dar mais credibilidade à OTAN do que ao meu pai... e me aterrozei ao pensar que, talvez, sim...
"Acontecimentos como esse podem ter um alto custo político à Casa Branca", disseram o repórtes
Custo político é cunho que eu não desejo, nunca, usar nas minhas relações.... nem isso, nem popularidade, nem nada que ateste a minha burrice, arrogância e politicagem
Desejo fazer cada vez menos política nesse vida... nem que para isso eu tenha que me resgaurdar dentro do meu mundinho... se ele tiver sóis e luas como meu pai, eu consigo, muito mais do que sobre, viver...

A senhorinha que carregava, nas costas, 3 sacos de lixo carregados de recicláveis, me desejou a bênção... e não foi porque eu lhe dei o leite que seria sua janta, mas muito mais porque eu gastei com ela cinco minutos de prosa... ela tinha os olhos verdes e o cabelo vaidosamente pintado de branco, embora suas roupas e seu cheiro de suor não demonstrassem tanta vaidade... ela me lembrou alguém, outrora bastante querido, porém que saiu da minha vida como se nunca tivesse existido...

Eu e o meu pai falamos muito hoje, como acho que nunca fizemos... eu culpo a mídia, a banalidade e a mim mesma por isso...
Ele também falou de morte...
E eu fiquei aterrorizada...

19 de fev. de 2010

Mais do mesmo

Ainda existem euros na minha carteira vermelha
No meu horizonte ainda vejo o sol se pôr no mar e a água rodar no sentido horário, embora minha pia agora esteja no hemisfério Sul
Ainda abro o armário dos copos procurando o sabão em pó, embora a máquina de lavar, aqui, não se encontre na cozinha; ainda levo minha necesseire de shampoos para o banheiro, embora aqui este se localize dentro do meu quarto; ainda me viro para o lado esquerdo, na cama, procurando o abajur, mesmo que aqui eu não possua um abajur; ainda acordo, diariamente, as 08 horas, horário de Londres...
Ainda tenho 2 malas, de 32 kilos cada, aguardando pacientemente no chão do meu quarto, porém agora para serem desfeitas
Ainda aqui permaneço, apenas 7 mil quilômetros mais deslocada...

"Já me fizeram muito mal", disse a senhorinha falante, no autocarro 18, um dia antes da minha partida...
Ela queria descer na Universidade, pois assim ficava mais perto para chegar em casa, empurrando seu carrinho de compras
Ela comentou que outrora haviam lhe dito a paragem errada pra descer, o que ocasionara seu cansaço pra chegar em casa
Eu ajudei-a a subir no autocarro e ela, ao saber do nosso destino em comum, comentou: "então me vou contigo"
Eu consenti, mas sentei-me distante, porque ela falava muitas coisas sem parar e eu queria me despedir dos caminhos da cidade
Ao parar do autocarro, no ponto da Universidade, desci com pressa para apanhar os cinco minutos finais dos serviços acadêmicos, e pensei que a senhorinha, lá no banco da frente, saberia que o ponto onde todos desciam, era o ponto requerido também por ela
Mas ao descer do autocarro, percebi que ela ainda lá permanecia, e olhava para trás, para onde outrora eu estivera sentada...
O autocarro, mais que depressa, fechou as portas e foi-se embora...
Conjecturei que ela desceria no outro ponto, também dentro da Universidade e talvez mais perto de algumas casas...
Talvez mais perto da casa da senhorinha...
Talvez...

Também o "talvez" ainda me acompanha...

A senhorinha, ao falar do mal, falava de portugueses
E eu, apática diante da sua fala e aterrorizada pelas possíveis respostas que me vieram a mente ( "a mim também" ou "ainda podem fazer muito mais"), disse apenas: pois...
E eu já não sei mais em que língua falei ou com qual nacionalidade agi, com ela...

"Um homem bom que não faz o bem, é um homem mau"...
Acho que serve pra mulheres também...

24 de jan. de 2010

gira, gira, gira...

Meus 15 euros já se foram, junto com o gás que hoje não me deu comida nem banho quentes
O deserto já se foi também, junto com os camelos e os sares coloridos
Eu é que ainda aqui permaneço, comendo um Big Taste cujo gosto me lembra à guardanapo de papel, comido por engano junto com o sanduíche
O que talvez pudesse me consolar, no típico egoísmo humano, me desola ainda mais, i. e., um senhorzinho procurando, nos restos plásticos vermelhos e amarelos da mesa ao lado, algo com gosto de papel para comer
Minha divagação em torno do sunday de chocolate se esvai, assim como a pouca fome que ainda restava

Termino de comer o Big Waste, junto com os três sachês de Ketchup, que lembram algo parecido com tomate
Me lembro das notícias sobre a companhia de avião Low Cost com a qual costumo cruzar o céu - porém não desta vez, mais - a proposta de cobrança pelo uso do banheiro à bordo
Me lembro das lojas de 1,99 made in China, e penso nos olhinhos puxados que fabricaram a bolsa vermelha de 2 euros que comprei na semana passada, e que já teve o zíper quebrado
Lembro das minas de esmeralda de Minas e da história sobre as mortes  no seu último desabamento de terra
Lembro do olhar perdido dos moços de Dublin, com seus copinhos de moedas numa das mãos e suas guarrafas de sonhos bebíveis e cheiráveis, na outra
Lembro do quadro de 200 euros com casinhas coloridas e meninos negros felizes correndo por entre seus telhados, em oferta na feira da praça de Ipanema.
Lembro da propaganda do Hostel do Rio: Favela Tour e volto ao Marrocos que não irei ao lembrar dos 10% já pagos pelo Desert Tour
Penso que devo vagar a mesa e lembro-me de jogar os plásticos e papelões com um M amarelo, no lixo reciclável
E penso: bullshit...

22 de jan. de 2010

Roda Gigante, mundo peão

Voltei das terras altas da Irlanda e, após receber as notas e constatar meu bom desenpenho nas Filosofias, já com muita fome, fui ao supermercado investir 15 euros em suprimentos para os próximos três dias que ficarei em Faro, antes de ir ao próximo, porém não ultimo destino, Marrocos.
Na saída do supermercado, com a sacola (reutilizável) lotada de plásticos, nutrientes e politicas corretas, por completa inanição, certa aquietação e alienação, um teor mediano de medo "à brasileira" e uma dose ainda incerta de arrogância, prepotência e "humanidade" (no sentido mais pessimista do adjetivo) e ainda com alta dose de sentimento de culpa e impotência, e muito desespero, neguei o que achei que fosse (já que nem ao menos me dei ao trabalho de ouvir de fato) um pedido de esmolas vindo de um homem-senhor espanhol.
Carreguei pra casa a minha sacola pesada...
Perdi a fome, a filosofia e mais uma parte do meu entusiasmo em desbravar as terras do meu mundinho...

25 de dez. de 2009

Quando os olhos dizem o que o jeito não traduz

Eu tinha um professor que cotumava sorrir com os olhos
Eu gosto dessa expressão, sorrir com os olhos
É bastante expressiva
Eles são...
Alguém já disse que são o espelho da alma
Eu acho que desta, são a nudez. O nosso forte, fraco.
Frágil fortaleza.

"Um homem precisa viajar"
Estava escrito num livro do Amir Klink.
No meu caminho de olhos estive em alguns que acariciam, muitos que silenciam, outros muitos que amam.
Me sinto bem com aqueles que  brilham.
O olhar tem muito mais de vida que de cultura.
Tem mais de gente.
Tem mais da gente.
Engana muito pouco, na contrapartida do jeito.

O taxista assaltante do Rio não me deixou ver seus olhos
E existia um aroma doce de ternura nos olhares que encontrei no caminho do meu dia. 
25 ciclos, 21 dias, 20 kilômetros a versar com o horizonte dos meus pés.
Uma alegria doce a compartilhar, em bonecos de gelo e aconchego de fósforos de aniversário.
Olhares especiais que encontramos pelo caminho.

A montanha também me olhou, olhou por mim e me abrigou a menos dez.
Dez segundos de alívio ao tanger o infinito da torre onde meus olhos riem,
e me transportam a 7 mil kilômetros mais perto de casa
Eu digo pro Amir que uma mulher também precisa viajar
Tanto quanto precisa estar em casa.

A Estrela aos meus pés

16 de dez. de 2009

I've got a feeling

...that tonight it's gonna be a good night, disseram os auto-falantes do mini-bus.
Fiquei pensando sobre a frase, visto que ainda eram 10 da manhã.
Me lembrei das outras três canções que soam incessantes na noite do Algarve.
Mas logo me esqueci, ao ouvir o Rap brasileiro que ecoava, às alturas, no celular do moço ao meu lado.
Ops, moço não, raparigo. Por aqui, o moço é pejorativo.

O auge do "good night" é sempre com a canção que diz "I don't know why".
A histeria coletiva de Sagres e Super Bock se instala na pista.
E eu, no mini-bus, pensando que vivo tendo esse sentimento, de não saber o porquê.
Não sei porque o brasileiro motorista me deixou um café pago em seu quiosque na praia de Portimão.
Mas acho que sei o motivo da minha supresa, nessas terras frias portuguesas.
Não sei porque o rapaz de touca preta fez questão de me mostrar como os homens podem ser monstros, quando se tratam com mulheres.
Mas sei porque o motorista me fez lembrar como eles podem ser doces, mesmo com café amargo.
Não sei porque as adolescentes e sua irmã gritante me seguiram quando mudei de vagão, pra tentar me livrar dos berros.
Mas sei porque encontrei, no outro vagão, uma mãe e seus dois bebês chorões.

Por ti mãe e por ti pai, tento me manter um pouco mais amena e mais quente, nesse inverno de ano inteiro.

Me ocorreu que as noites possam ser muito semelhantes, só com o aditivo do fuso-horário.
Tribos da aldeia global, como já dizia um querido amigo.
Ele disse, e muitos já tinham dito, assim como outros tantos, como eu, dirão depois.
Tribos que ciclam e reciclam, inclusive pensamentos.
Idéias e ideais, afastados apenas por uma leve inversão de vogais.
E eu não sei se tenho um ou outro, ambos ou nenhum, nesse mundo de valores invertidos que eu vejo, ou pinto.

Ganhei uma caneta de pintar tecidos, mas ainda não usei.
Tô por enquanto pintando o meu campo de ideais.
E tenho muita sorte de sempre encontrar, pelo meu caminho, alguns anjos que me ajudam a pintar meu campo de sonhos.
Hoje eu ganhei muito mais que um embrulho de natal.
Agradeço.

24 de nov. de 2009

Tende piedade de nós


"Óh Deus, tirai os pecados do mundo!",
disse a senhorinha cantora de uma bonita catedral do Porto.
Glória a Deus ela cantava, com voz quase angelical.
Digo quase, pois não cabe aos homens serem anjos, principalmente na casa do Senhor.
Se o murmurar cansado do padre em nada me cativava a permanência,
a doce voz da senhorinha e a imensidão imponente da Morada Divina me prendiam ao banco.
A imponência, a muito já se sabe, intui fazer-nos sentir infinitamente pequenos.
É para nos dar a dimensão de nossa insignificância.
Entretanto, eu não me sinto pequena perante ao ouro que reveste as  pedras do interior, aos azulejos delicadamente pintados no lado de fora ou ainda, ao branco da batina.
Sinto-me impotente.
A mesma impotência que sinto ao ver a pobreza nos nossos faróis, e até nesta praça em frente à Catedral.
Aquela mesma (impotência), que se ensena sobre meu imaginar, e quase até sentir, da aflição dos pecadores em murmúrios de redenção aos anjos e padres. Pinturas de memórias azuis, nos azulejos do poder divino.

Andamos delegando a Deus funções deveras. Funções de homens, "à sua imagem e semelhança".

O meu Porto-seguro não encontro em nenhuma Catedral.
Ele está no instante, aquele, que não me deixa admirar em demasia a arquitetura do berço cultural ocidental.
Que não me deixa, em verdade em verdade vos digo, admirar demasiado a própria cultura.
Consigo me prender mais às folhas amareladas que anunciam o findar do outono.
Não darei moedas à coroinha anciã, assim como não as dou ao menino negro habitante dos faróis abaixo do equador.
Assim como não as dei para comprar o pãozinho regado à toxico da moça-senhora moradora da rua da Catedral.
Deus mora na minha casa e nela também moram muitos anjos.
A minha casa está bem longe daqui. Ela é onde toda a gente está, mas ao contrário do que diria Arnaldo, não é em todo lugar.

"There's no way like home", já dizia uma música qualquer.

Parque da Galeria de Arte Moderna Serralves, na cidade do Porto

6 de nov. de 2009

Todas as cores

A atual Economia não compra meias coloridas
Ela é bastante cinza, preta, social
Engraçado esse termo, social
Vestir social é vestir-se bem, traje sério, de indivíduos comprometidos
Traje de seres sociais
Todos os dias, ao acordar, trajamos nossos seres sociais
Trajamo-nos a forma que melhor nos cabe para, talvez, caber em algum lugar
Ditamos o nosso ser de acordo com nosso almejado caber
O nosso ser social, apenas
O outro, o essencial, da essência, damos um jeito de colocar por baixo dos trajes, tratando-o como segunda pele
Então, munidos de nossas vestimentas, as duas, lá vamos nós, socializar
Durante os dias, úteis, comercializamos nossa sociabilidade
Nas noites, úteis também, sociabilizamos os rendimentos
E nos dias e noites já sem utilidade, despimos, sociavelmente ou não, nossos seres essenciais

A Glorinha Calil, Fantástica! consultora de moda, disse que a nossa moda fala de nós por si só
Pois eu acho que a moda é muda, cega e surda em si mesma...mas pode ver demais, ouvir de menos, e falar ainda mais, pela interpretação dos outros
Seres sociais

Minha colega disse-me sobre a evolução do pensamento do gênero Homo
Neuropsicologia
Psicologia Social
Um aspirante a psicólogo me perguntou porque eu andava a cursar Filosofia
Bio-ética, ele disse?
Não, não. Apenas uma tentativa de definir a própria ética, e com sorte, entender sua não existência

A Sociologia tentou, mas não entendeu as meias
A Economia já logo pensou no preço dos sapatos fechados, de salto, brilhantes, lustrados
A Psicologia analisou cada cor e o conjunto da obra, no pé-manequim
As Ciências da Educação e da Formação teorizavam tanto sobre a semântica, dialética, retórica e meiêutica, que nem sequer notoram as cores
A Biologia nem ao menos reconheceu as meias, já que andava descalço

Um professor deu a dica, comentou sobre a palidez do dia
Mesmo assim, as ciências não entenderam...

As meias coloridas, simplesmente, coloriam o dia
O meu.

Seres socíais, nem sempre, porém, sociáveis

31 de out. de 2009

À noite à[dentro]

Ontem eu tive medo da chuva.
Tentei me abrigar da tempestade tua,
tentei me abrigar em ti.
Busquei tolices em passatempos de menina,
cruzei olhares em passos bambos, castelos de sonhos, sorrisos e lágrimas.
Silenciei-te em mim, e do teu silêncio me acometi.

Abriguei-me na sorte, na sacada e dentro do quarto.
Atirei-me na fuga, no sono, no livro aberto, nas palavras.

Roubei-te a cena, pesquei-te os mares, o sol, a doçura e rebeldia.
Vesti-me em branco, cinza e lilás.
Li-me lá, na estrela tua, em preto e branco e degradê.
Pintei o arco, a flecha, juntei o pó e fiz-me sino,
e ecoei pela viagem peito adentro.

Alimentei-te em mim, em prosa, verso e canção.
Cansei, deitei, e dormi, então.

30 de out. de 2009

Mecanicismo

A Faixa é como um mantra.
Enfeitiça, e faz parar ao menor sinal de movimento.
Pode-se estar em alta velocidade, podem ser autocarros que só cabem dois.
O fato é que todos, fielmente, se rendem à Ela.
Ela é branca, feita de listras largas dispostas em pararelo. Não tem nada demais.
Nada de novo, nada de diferente. É igual às tantas outras, de tantas nacionalidades.
Mas as daqui, do centro do mundo, fazem parar.
Isso me chamou a atenção. Me encantou por um momento.
Me levou a uma profunda reflexão sobre a origem do poder Dela.
Conjecturei que, talvez, o costume fosse advindo da cidadania.
Esta minha mania meio platônica de pensar o homem naturalmente bom.
Embora com esse romancear, antiquadamente neoneoneo-clássico, por vezes ironizei o poder Dela.
Lembrei, racional e biologicamente, sobre o reforço negativo aos cães.
Pensei, repetidamente,sobre o reflexo condicionado.
Formulei uma teoria mais provável e sistemática para a magnitude Dela, na tentativa de refutar a minha constante Antiguidade.
Passei um bom tempo nesse sarcasmo afoito.
Mas a doçura do rígido brecar dos autos(carros)  foi, aos poucos, despertando o meu sensurado Platão.
Até que um brecar, mais rígido que o usual, me trouxe novamente ao mundo sensível.
Não havia movimento sobre Ela, mas deste havia iminência.
Era um perfume branco, antigo, com o cheiro do tempo, a esperar por alguém. Inadivertidamente, à beira da Faixa.
Ao perceber, meio demoradamente - como é comum a esses aromas antigos, que a muitos olfatos já serviram -, o rígido e politizado ranger de freios, um aceno de mão, meio sem jeito, frágil - como também lhes é comum ser -, disse o imperdoável: "Meu Filho, não haverá o cruzar asfalto. Desculpe-me. Podes passar".
E então, grosseiramente, o inteligível largou-se no plano das idéias e deu lugar ao insensível. " E O QUE FAZES AÍ PARADA ENTÃO, MULHER!?"
Sufoquei, de novo e com todo o cuidado, o Platão dentro de mim.

"Ela"

29 de out. de 2009



Uma amiga perguntou, não diretamente a mim, o que fazer quando as coisas estão difíceis.
Pois só o que sei é que os horizontes nunca são os mesmos, embora o céu seja um só.
Talvez a perspectiva é que mude.



Uma amiga perguntou, não diretamente a mim, o que fazer quando as coisas estão difíceis.
Pois só o que sei é que os horizontes nunca são os mesmos, embora o céu seja um só.
Ou será que é a perspectiva

28 de out. de 2009

Verso

As vezes me pergunto porque as pessoas de mais idade andam a falar com desconhecidos.
Talvez seja o tempo já vivido, que traz a ausência da vergonha
Talvez seja a solidão, que esse mesmo tempo traz.
Talvez sejam ambas, conjugadas e resultadas na necessidade da prosa.
Me pergunto se a prosa por vezes não é verso, apenas desabercebido.
Me pergunto se a fala é qualquer uma, ou se é a flor da idade que assim a faz parecer.
Imagino se os versos ditos são mais para quem os diz, ou mais para quem os ouve.
Concluo que são ambos e nenhum.

Demasiado humano



Biquini e camiseta larga por cima.
Água. Salgada.

Biquini, já sem camiseta.
Já fora d´água.

Toalha envolvendo o biquíni, molhado.

Toalha no corpo nú.
Areia.

Nem toalha, nem biquíni. Corpo totalmente nú.
Areia. Corpo seco.

Calcinha, sultien, blusinha, calça, blusa de frio (?), óculos de sol, chapéu, chinelo (?), colar de prata.
Areia.
Areia na calça branca, debaixo do guarda-sol.

Sol, mar, areia.
Biquini, nenhuma roupa, roupa demais.

Cachorrinho.
Pêlos, areia...e bolinha.

Os seres humanos são, no mínimo, peculiarmente engraçados.

Solamente

Uma negra carregando, graciosamente, uma grande tábua apoiada na cabeça. Só.
Uma garrafa de vinho barato e um vidro de bronzeador de coco abandonados na areia da praia. Sós.
Um cão sendo apedrejado por garotos na beira do mar. Os últimos, na companhia de seus pais. O primeiro, Só.
Um mergulhão em sua caça frustrada, banhado pela poeira de água esguichada por um jet esqui. Acompanhadamente Só.
Uma senhora sentada em frente ao mar, proferindo palavras soltas e tão sinceras: "ahh, o mar..". Incrivelmente Só.
Um espanhol pedindo moedas para apanhar o trem na porta da estação. Alcoolicamente Só.
Cenas singularmente capturadas em meio ao frenesi de acontecimentos diários.
O mendigo cantador da praça do Fórum.
Fotografias recortadas, editadas pelo olhar e revisitadas pela memória que faz do velho, novo, e do novo, o mesmo pálido e recorrente velho.
As coisas são, simplesmente, as coisas.


Vista do Pier da Marina de Faro, Algarve, Portugal