Meus 15 euros já se foram, junto com o gás que hoje não me deu comida nem banho quentes
O deserto já se foi também, junto com os camelos e os sares coloridos
Eu é que ainda aqui permaneço, comendo um Big Taste cujo gosto me lembra à guardanapo de papel, comido por engano junto com o sanduíche
O que talvez pudesse me consolar, no típico egoísmo humano, me desola ainda mais, i. e., um senhorzinho procurando, nos restos plásticos vermelhos e amarelos da mesa ao lado, algo com gosto de papel para comer
Minha divagação em torno do sunday de chocolate se esvai, assim como a pouca fome que ainda restava
Termino de comer o Big Waste, junto com os três sachês de Ketchup, que lembram algo parecido com tomate
Me lembro das notícias sobre a companhia de avião Low Cost com a qual costumo cruzar o céu - porém não desta vez, mais - a proposta de cobrança pelo uso do banheiro à bordo
Me lembro das lojas de 1,99 made in China, e penso nos olhinhos puxados que fabricaram a bolsa vermelha de 2 euros que comprei na semana passada, e que já teve o zíper quebrado
Lembro das minas de esmeralda de Minas e da história sobre as mortes no seu último desabamento de terra
Lembro do olhar perdido dos moços de Dublin, com seus copinhos de moedas numa das mãos e suas guarrafas de sonhos bebíveis e cheiráveis, na outra
Lembro do quadro de 200 euros com casinhas coloridas e meninos negros felizes correndo por entre seus telhados, em oferta na feira da praça de Ipanema.
Lembro da propaganda do Hostel do Rio: Favela Tour e volto ao Marrocos que não irei ao lembrar dos 10% já pagos pelo Desert Tour
Penso que devo vagar a mesa e lembro-me de jogar os plásticos e papelões com um M amarelo, no lixo reciclável
E penso: bullshit...
24 de jan. de 2010
22 de jan. de 2010
Roda Gigante, mundo peão
Voltei das terras altas da Irlanda e, após receber as notas e constatar meu bom desenpenho nas Filosofias, já com muita fome, fui ao supermercado investir 15 euros em suprimentos para os próximos três dias que ficarei em Faro, antes de ir ao próximo, porém não ultimo destino, Marrocos.
Na saída do supermercado, com a sacola (reutilizável) lotada de plásticos, nutrientes e politicas corretas, por completa inanição, certa aquietação e alienação, um teor mediano de medo "à brasileira" e uma dose ainda incerta de arrogância, prepotência e "humanidade" (no sentido mais pessimista do adjetivo) e ainda com alta dose de sentimento de culpa e impotência, e muito desespero, neguei o que achei que fosse (já que nem ao menos me dei ao trabalho de ouvir de fato) um pedido de esmolas vindo de um homem-senhor espanhol.
Carreguei pra casa a minha sacola pesada...
Perdi a fome, a filosofia e mais uma parte do meu entusiasmo em desbravar as terras do meu mundinho...
Na saída do supermercado, com a sacola (reutilizável) lotada de plásticos, nutrientes e politicas corretas, por completa inanição, certa aquietação e alienação, um teor mediano de medo "à brasileira" e uma dose ainda incerta de arrogância, prepotência e "humanidade" (no sentido mais pessimista do adjetivo) e ainda com alta dose de sentimento de culpa e impotência, e muito desespero, neguei o que achei que fosse (já que nem ao menos me dei ao trabalho de ouvir de fato) um pedido de esmolas vindo de um homem-senhor espanhol.
Carreguei pra casa a minha sacola pesada...
Perdi a fome, a filosofia e mais uma parte do meu entusiasmo em desbravar as terras do meu mundinho...
25 de dez. de 2009
Quando os olhos dizem o que o jeito não traduz
Eu tinha um professor que cotumava sorrir com os olhos
Eu gosto dessa expressão, sorrir com os olhos
É bastante expressiva
Eles são...
Alguém já disse que são o espelho da alma
Eu acho que desta, são a nudez. O nosso forte, fraco.
Frágil fortaleza.
"Um homem precisa viajar"
Estava escrito num livro do Amir Klink.
No meu caminho de olhos estive em alguns que acariciam, muitos que silenciam, outros muitos que amam.
Me sinto bem com aqueles que brilham.
O olhar tem muito mais de vida que de cultura.
Tem mais de gente.
Tem mais da gente.
Engana muito pouco, na contrapartida do jeito.
O taxista assaltante do Rio não me deixou ver seus olhos
E existia um aroma doce de ternura nos olhares que encontrei no caminho do meu dia.
25 ciclos, 21 dias, 20 kilômetros a versar com o horizonte dos meus pés.
Uma alegria doce a compartilhar, em bonecos de gelo e aconchego de fósforos de aniversário.
Olhares especiais que encontramos pelo caminho.
A montanha também me olhou, olhou por mim e me abrigou a menos dez.
Dez segundos de alívio ao tanger o infinito da torre onde meus olhos riem,
e me transportam a 7 mil kilômetros mais perto de casa
Eu digo pro Amir que uma mulher também precisa viajar
Tanto quanto precisa estar em casa.
Eu gosto dessa expressão, sorrir com os olhos
É bastante expressiva
Eles são...
Alguém já disse que são o espelho da alma
Eu acho que desta, são a nudez. O nosso forte, fraco.
Frágil fortaleza.
"Um homem precisa viajar"
Estava escrito num livro do Amir Klink.
No meu caminho de olhos estive em alguns que acariciam, muitos que silenciam, outros muitos que amam.
Me sinto bem com aqueles que brilham.
O olhar tem muito mais de vida que de cultura.
Tem mais de gente.
Tem mais da gente.
Engana muito pouco, na contrapartida do jeito.
O taxista assaltante do Rio não me deixou ver seus olhos
E existia um aroma doce de ternura nos olhares que encontrei no caminho do meu dia.
25 ciclos, 21 dias, 20 kilômetros a versar com o horizonte dos meus pés.
Uma alegria doce a compartilhar, em bonecos de gelo e aconchego de fósforos de aniversário.
Olhares especiais que encontramos pelo caminho.
A montanha também me olhou, olhou por mim e me abrigou a menos dez.
Dez segundos de alívio ao tanger o infinito da torre onde meus olhos riem,
e me transportam a 7 mil kilômetros mais perto de casa
Eu digo pro Amir que uma mulher também precisa viajar
Tanto quanto precisa estar em casa.
16 de dez. de 2009
I've got a feeling
...that tonight it's gonna be a good night, disseram os auto-falantes do mini-bus.
Fiquei pensando sobre a frase, visto que ainda eram 10 da manhã.
Me lembrei das outras três canções que soam incessantes na noite do Algarve.
Mas logo me esqueci, ao ouvir o Rap brasileiro que ecoava, às alturas, no celular do moço ao meu lado.
Ops, moço não, raparigo. Por aqui, o moço é pejorativo.
O auge do "good night" é sempre com a canção que diz "I don't know why".
A histeria coletiva de Sagres e Super Bock se instala na pista.
E eu, no mini-bus, pensando que vivo tendo esse sentimento, de não saber o porquê.
Não sei porque o brasileiro motorista me deixou um café pago em seu quiosque na praia de Portimão.
Mas acho que sei o motivo da minha supresa, nessas terras frias portuguesas.
Não sei porque o rapaz de touca preta fez questão de me mostrar como os homens podem ser monstros, quando se tratam com mulheres.
Mas sei porque o motorista me fez lembrar como eles podem ser doces, mesmo com café amargo.
Não sei porque as adolescentes e sua irmã gritante me seguiram quando mudei de vagão, pra tentar me livrar dos berros.
Mas sei porque encontrei, no outro vagão, uma mãe e seus dois bebês chorões.
Por ti mãe e por ti pai, tento me manter um pouco mais amena e mais quente, nesse inverno de ano inteiro.
Me ocorreu que as noites possam ser muito semelhantes, só com o aditivo do fuso-horário.
Tribos da aldeia global, como já dizia um querido amigo.
Ele disse, e muitos já tinham dito, assim como outros tantos, como eu, dirão depois.
Tribos que ciclam e reciclam, inclusive pensamentos.
Idéias e ideais, afastados apenas por uma leve inversão de vogais.
E eu não sei se tenho um ou outro, ambos ou nenhum, nesse mundo de valores invertidos que eu vejo, ou pinto.
Ganhei uma caneta de pintar tecidos, mas ainda não usei.
Tô por enquanto pintando o meu campo de ideais.
E tenho muita sorte de sempre encontrar, pelo meu caminho, alguns anjos que me ajudam a pintar meu campo de sonhos.
Hoje eu ganhei muito mais que um embrulho de natal.
Agradeço.
Fiquei pensando sobre a frase, visto que ainda eram 10 da manhã.
Me lembrei das outras três canções que soam incessantes na noite do Algarve.
Mas logo me esqueci, ao ouvir o Rap brasileiro que ecoava, às alturas, no celular do moço ao meu lado.
Ops, moço não, raparigo. Por aqui, o moço é pejorativo.
O auge do "good night" é sempre com a canção que diz "I don't know why".
A histeria coletiva de Sagres e Super Bock se instala na pista.
E eu, no mini-bus, pensando que vivo tendo esse sentimento, de não saber o porquê.
Não sei porque o brasileiro motorista me deixou um café pago em seu quiosque na praia de Portimão.
Mas acho que sei o motivo da minha supresa, nessas terras frias portuguesas.
Não sei porque o rapaz de touca preta fez questão de me mostrar como os homens podem ser monstros, quando se tratam com mulheres.
Mas sei porque o motorista me fez lembrar como eles podem ser doces, mesmo com café amargo.
Não sei porque as adolescentes e sua irmã gritante me seguiram quando mudei de vagão, pra tentar me livrar dos berros.
Mas sei porque encontrei, no outro vagão, uma mãe e seus dois bebês chorões.
Por ti mãe e por ti pai, tento me manter um pouco mais amena e mais quente, nesse inverno de ano inteiro.
Me ocorreu que as noites possam ser muito semelhantes, só com o aditivo do fuso-horário.
Tribos da aldeia global, como já dizia um querido amigo.
Ele disse, e muitos já tinham dito, assim como outros tantos, como eu, dirão depois.
Tribos que ciclam e reciclam, inclusive pensamentos.
Idéias e ideais, afastados apenas por uma leve inversão de vogais.
E eu não sei se tenho um ou outro, ambos ou nenhum, nesse mundo de valores invertidos que eu vejo, ou pinto.
Ganhei uma caneta de pintar tecidos, mas ainda não usei.
Tô por enquanto pintando o meu campo de ideais.
E tenho muita sorte de sempre encontrar, pelo meu caminho, alguns anjos que me ajudam a pintar meu campo de sonhos.
Hoje eu ganhei muito mais que um embrulho de natal.
Agradeço.
24 de nov. de 2009
Tende piedade de nós
"Óh Deus, tirai os pecados do mundo!",
disse a senhorinha cantora de uma bonita catedral do Porto.
Glória a Deus ela cantava, com voz quase angelical.
Digo quase, pois não cabe aos homens serem anjos, principalmente na casa do Senhor.
Se o murmurar cansado do padre em nada me cativava a permanência,
a doce voz da senhorinha e a imensidão imponente da Morada Divina me prendiam ao banco.
A imponência, a muito já se sabe, intui fazer-nos sentir infinitamente pequenos.
É para nos dar a dimensão de nossa insignificância.
Entretanto, eu não me sinto pequena perante ao ouro que reveste as pedras do interior, aos azulejos delicadamente pintados no lado de fora ou ainda, ao branco da batina.
Sinto-me impotente.
A mesma impotência que sinto ao ver a pobreza nos nossos faróis, e até nesta praça em frente à Catedral.
Aquela mesma (impotência), que se ensena sobre meu imaginar, e quase até sentir, da aflição dos pecadores em murmúrios de redenção aos anjos e padres. Pinturas de memórias azuis, nos azulejos do poder divino.
Andamos delegando a Deus funções deveras. Funções de homens, "à sua imagem e semelhança".
O meu Porto-seguro não encontro em nenhuma Catedral.
Ele está no instante, aquele, que não me deixa admirar em demasia a arquitetura do berço cultural ocidental.
Que não me deixa, em verdade em verdade vos digo, admirar demasiado a própria cultura.
Consigo me prender mais às folhas amareladas que anunciam o findar do outono.
Não darei moedas à coroinha anciã, assim como não as dou ao menino negro habitante dos faróis abaixo do equador.
Assim como não as dei para comprar o pãozinho regado à toxico da moça-senhora moradora da rua da Catedral.
Deus mora na minha casa e nela também moram muitos anjos.
A minha casa está bem longe daqui. Ela é onde toda a gente está, mas ao contrário do que diria Arnaldo, não é em todo lugar.
"There's no way like home", já dizia uma música qualquer.
Parque da Galeria de Arte Moderna Serralves, na cidade do Porto
6 de nov. de 2009
Todas as cores
A atual Economia não compra meias coloridas
Ela é bastante cinza, preta, social
Engraçado esse termo, social
Vestir social é vestir-se bem, traje sério, de indivíduos comprometidos
Traje de seres sociais
Todos os dias, ao acordar, trajamos nossos seres sociais
Trajamo-nos a forma que melhor nos cabe para, talvez, caber em algum lugar
Ditamos o nosso ser de acordo com nosso almejado caber
O nosso ser social, apenas
O outro, o essencial, da essência, damos um jeito de colocar por baixo dos trajes, tratando-o como segunda pele
Então, munidos de nossas vestimentas, as duas, lá vamos nós, socializar
Durante os dias, úteis, comercializamos nossa sociabilidade
Nas noites, úteis também, sociabilizamos os rendimentos
E nos dias e noites já sem utilidade, despimos, sociavelmente ou não, nossos seres essenciais
A Glorinha Calil, Fantástica! consultora de moda, disse que a nossa moda fala de nós por si só
Pois eu acho que a moda é muda, cega e surda em si mesma...mas pode ver demais, ouvir de menos, e falar ainda mais, pela interpretação dos outros
Seres sociais
Minha colega disse-me sobre a evolução do pensamento do gênero Homo
Neuropsicologia
Psicologia Social
Um aspirante a psicólogo me perguntou porque eu andava a cursar Filosofia
Bio-ética, ele disse?
Não, não. Apenas uma tentativa de definir a própria ética, e com sorte, entender sua não existência
A Sociologia tentou, mas não entendeu as meias
A Economia já logo pensou no preço dos sapatos fechados, de salto, brilhantes, lustrados
A Psicologia analisou cada cor e o conjunto da obra, no pé-manequim
As Ciências da Educação e da Formação teorizavam tanto sobre a semântica, dialética, retórica e meiêutica, que nem sequer notoram as cores
A Biologia nem ao menos reconheceu as meias, já que andava descalço
Um professor deu a dica, comentou sobre a palidez do dia
Mesmo assim, as ciências não entenderam...
As meias coloridas, simplesmente, coloriam o dia
O meu.
Seres socíais, nem sempre, porém, sociáveis
Ela é bastante cinza, preta, social
Engraçado esse termo, social
Vestir social é vestir-se bem, traje sério, de indivíduos comprometidos
Traje de seres sociais
Todos os dias, ao acordar, trajamos nossos seres sociais
Trajamo-nos a forma que melhor nos cabe para, talvez, caber em algum lugar
Ditamos o nosso ser de acordo com nosso almejado caber
O nosso ser social, apenas
O outro, o essencial, da essência, damos um jeito de colocar por baixo dos trajes, tratando-o como segunda pele
Então, munidos de nossas vestimentas, as duas, lá vamos nós, socializar
Durante os dias, úteis, comercializamos nossa sociabilidade
Nas noites, úteis também, sociabilizamos os rendimentos
E nos dias e noites já sem utilidade, despimos, sociavelmente ou não, nossos seres essenciais
A Glorinha Calil, Fantástica! consultora de moda, disse que a nossa moda fala de nós por si só
Pois eu acho que a moda é muda, cega e surda em si mesma...mas pode ver demais, ouvir de menos, e falar ainda mais, pela interpretação dos outros
Seres sociais
Minha colega disse-me sobre a evolução do pensamento do gênero Homo
Neuropsicologia
Psicologia Social
Um aspirante a psicólogo me perguntou porque eu andava a cursar Filosofia
Bio-ética, ele disse?
Não, não. Apenas uma tentativa de definir a própria ética, e com sorte, entender sua não existência
A Sociologia tentou, mas não entendeu as meias
A Economia já logo pensou no preço dos sapatos fechados, de salto, brilhantes, lustrados
A Psicologia analisou cada cor e o conjunto da obra, no pé-manequim
As Ciências da Educação e da Formação teorizavam tanto sobre a semântica, dialética, retórica e meiêutica, que nem sequer notoram as cores
A Biologia nem ao menos reconheceu as meias, já que andava descalço
Um professor deu a dica, comentou sobre a palidez do dia
Mesmo assim, as ciências não entenderam...
As meias coloridas, simplesmente, coloriam o dia
O meu.
Seres socíais, nem sempre, porém, sociáveis
31 de out. de 2009
À noite à[dentro]
Ontem eu tive medo da chuva.
Tentei me abrigar da tempestade tua,
tentei me abrigar em ti.
Busquei tolices em passatempos de menina,
cruzei olhares em passos bambos, castelos de sonhos, sorrisos e lágrimas.
Silenciei-te em mim, e do teu silêncio me acometi.
Abriguei-me na sorte, na sacada e dentro do quarto.
Atirei-me na fuga, no sono, no livro aberto, nas palavras.
Roubei-te a cena, pesquei-te os mares, o sol, a doçura e rebeldia.
Vesti-me em branco, cinza e lilás.
Li-me lá, na estrela tua, em preto e branco e degradê.
Pintei o arco, a flecha, juntei o pó e fiz-me sino,
e ecoei pela viagem peito adentro.
Alimentei-te em mim, em prosa, verso e canção.
Cansei, deitei, e dormi, então.
Tentei me abrigar da tempestade tua,
tentei me abrigar em ti.
Busquei tolices em passatempos de menina,
cruzei olhares em passos bambos, castelos de sonhos, sorrisos e lágrimas.
Silenciei-te em mim, e do teu silêncio me acometi.
Abriguei-me na sorte, na sacada e dentro do quarto.
Atirei-me na fuga, no sono, no livro aberto, nas palavras.
Roubei-te a cena, pesquei-te os mares, o sol, a doçura e rebeldia.
Vesti-me em branco, cinza e lilás.
Li-me lá, na estrela tua, em preto e branco e degradê.
Pintei o arco, a flecha, juntei o pó e fiz-me sino,
e ecoei pela viagem peito adentro.
Alimentei-te em mim, em prosa, verso e canção.
Cansei, deitei, e dormi, então.
30 de out. de 2009
Mecanicismo
A Faixa é como um mantra.
Enfeitiça, e faz parar ao menor sinal de movimento.
Pode-se estar em alta velocidade, podem ser autocarros que só cabem dois.
O fato é que todos, fielmente, se rendem à Ela.
Ela é branca, feita de listras largas dispostas em pararelo. Não tem nada demais.
Nada de novo, nada de diferente. É igual às tantas outras, de tantas nacionalidades.
Mas as daqui, do centro do mundo, fazem parar.
Isso me chamou a atenção. Me encantou por um momento.
Me levou a uma profunda reflexão sobre a origem do poder Dela.
Conjecturei que, talvez, o costume fosse advindo da cidadania.
Esta minha mania meio platônica de pensar o homem naturalmente bom.
Embora com esse romancear, antiquadamente neoneoneo-clássico, por vezes ironizei o poder Dela.
Lembrei, racional e biologicamente, sobre o reforço negativo aos cães.
Pensei, repetidamente,sobre o reflexo condicionado.
Formulei uma teoria mais provável e sistemática para a magnitude Dela, na tentativa de refutar a minha constante Antiguidade.
Passei um bom tempo nesse sarcasmo afoito.
Mas a doçura do rígido brecar dos autos(carros) foi, aos poucos, despertando o meu sensurado Platão.
Até que um brecar, mais rígido que o usual, me trouxe novamente ao mundo sensível.
Não havia movimento sobre Ela, mas deste havia iminência.
Era um perfume branco, antigo, com o cheiro do tempo, a esperar por alguém. Inadivertidamente, à beira da Faixa.
Ao perceber, meio demoradamente - como é comum a esses aromas antigos, que a muitos olfatos já serviram -, o rígido e politizado ranger de freios, um aceno de mão, meio sem jeito, frágil - como também lhes é comum ser -, disse o imperdoável: "Meu Filho, não haverá o cruzar asfalto. Desculpe-me. Podes passar".
E então, grosseiramente, o inteligível largou-se no plano das idéias e deu lugar ao insensível. " E O QUE FAZES AÍ PARADA ENTÃO, MULHER!?"
Sufoquei, de novo e com todo o cuidado, o Platão dentro de mim.
Enfeitiça, e faz parar ao menor sinal de movimento.
Pode-se estar em alta velocidade, podem ser autocarros que só cabem dois.
O fato é que todos, fielmente, se rendem à Ela.
Ela é branca, feita de listras largas dispostas em pararelo. Não tem nada demais.
Nada de novo, nada de diferente. É igual às tantas outras, de tantas nacionalidades.
Mas as daqui, do centro do mundo, fazem parar.
Isso me chamou a atenção. Me encantou por um momento.
Me levou a uma profunda reflexão sobre a origem do poder Dela.
Conjecturei que, talvez, o costume fosse advindo da cidadania.
Esta minha mania meio platônica de pensar o homem naturalmente bom.
Embora com esse romancear, antiquadamente neoneoneo-clássico, por vezes ironizei o poder Dela.
Lembrei, racional e biologicamente, sobre o reforço negativo aos cães.
Pensei, repetidamente,sobre o reflexo condicionado.
Formulei uma teoria mais provável e sistemática para a magnitude Dela, na tentativa de refutar a minha constante Antiguidade.
Passei um bom tempo nesse sarcasmo afoito.
Mas a doçura do rígido brecar dos autos(carros) foi, aos poucos, despertando o meu sensurado Platão.
Até que um brecar, mais rígido que o usual, me trouxe novamente ao mundo sensível.
Não havia movimento sobre Ela, mas deste havia iminência.
Era um perfume branco, antigo, com o cheiro do tempo, a esperar por alguém. Inadivertidamente, à beira da Faixa.
Ao perceber, meio demoradamente - como é comum a esses aromas antigos, que a muitos olfatos já serviram -, o rígido e politizado ranger de freios, um aceno de mão, meio sem jeito, frágil - como também lhes é comum ser -, disse o imperdoável: "Meu Filho, não haverá o cruzar asfalto. Desculpe-me. Podes passar".
E então, grosseiramente, o inteligível largou-se no plano das idéias e deu lugar ao insensível. " E O QUE FAZES AÍ PARADA ENTÃO, MULHER!?"
Sufoquei, de novo e com todo o cuidado, o Platão dentro de mim.
"Ela"
29 de out. de 2009
28 de out. de 2009
Verso
As vezes me pergunto porque as pessoas de mais idade andam a falar com desconhecidos.
Talvez seja o tempo já vivido, que traz a ausência da vergonha
Talvez seja a solidão, que esse mesmo tempo traz.
Talvez sejam ambas, conjugadas e resultadas na necessidade da prosa.
Me pergunto se a prosa por vezes não é verso, apenas desabercebido.
Me pergunto se a fala é qualquer uma, ou se é a flor da idade que assim a faz parecer.
Imagino se os versos ditos são mais para quem os diz, ou mais para quem os ouve.
Concluo que são ambos e nenhum.
Talvez seja o tempo já vivido, que traz a ausência da vergonha
Talvez seja a solidão, que esse mesmo tempo traz.
Talvez sejam ambas, conjugadas e resultadas na necessidade da prosa.
Me pergunto se a prosa por vezes não é verso, apenas desabercebido.
Me pergunto se a fala é qualquer uma, ou se é a flor da idade que assim a faz parecer.
Imagino se os versos ditos são mais para quem os diz, ou mais para quem os ouve.
Concluo que são ambos e nenhum.
Demasiado humano
Biquini e camiseta larga por cima.
Água. Salgada.
Biquini, já sem camiseta.
Já fora d´água.
Toalha envolvendo o biquíni, molhado.
Toalha no corpo nú.
Areia.
Nem toalha, nem biquíni. Corpo totalmente nú.
Areia. Corpo seco.
Calcinha, sultien, blusinha, calça, blusa de frio (?), óculos de sol, chapéu, chinelo (?), colar de prata.
Areia.
Areia na calça branca, debaixo do guarda-sol.
Sol, mar, areia.
Biquini, nenhuma roupa, roupa demais.
Cachorrinho.
Pêlos, areia...e bolinha.
Os seres humanos são, no mínimo, peculiarmente engraçados.
Solamente
Uma negra carregando, graciosamente, uma grande tábua apoiada na cabeça. Só.
Uma garrafa de vinho barato e um vidro de bronzeador de coco abandonados na areia da praia. Sós. Um cão sendo apedrejado por garotos na beira do mar. Os últimos, na companhia de seus pais. O primeiro, Só.
Um mergulhão em sua caça frustrada, banhado pela poeira de água esguichada por um jet esqui. Acompanhadamente Só.
Uma senhora sentada em frente ao mar, proferindo palavras soltas e tão sinceras: "ahh, o mar..". Incrivelmente Só.
Um espanhol pedindo moedas para apanhar o trem na porta da estação. Alcoolicamente Só.
Cenas singularmente capturadas em meio ao frenesi de acontecimentos diários.
O mendigo cantador da praça do Fórum. Fotografias recortadas, editadas pelo olhar e revisitadas pela memória que faz do velho, novo, e do novo, o mesmo pálido e recorrente velho.
As coisas são, simplesmente, as coisas.
Vista do Pier da Marina de Faro, Algarve, Portugal
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